POV/ SAKURA
Meu irmão me instalou em uma estação próxima à sua mesa e explicou o que precisava ser conferido. Havia relatórios de despesas, entradas previstas, pagamentos a fornecedores e contratos que precisavam ser conciliados com os registros administrativos. Nada daquilo exigia acesso a informações sigilosas, e eu conhecia bem o procedimento.
Comecei pelas despesas menores, conferindo datas, valores e classificações. Em pouco tempo, encontrei duas duplicidades de lançamento e uma divergência entre o valor previsto em um contrato e o total registrado na planilha. Mostrei os erros a Diego, que agradeceu com tanta sinceridade que quase senti pena dele.
Quase.
Porque, quando cheguei ao terceiro conjunto de arquivos, percebi que minha curiosidade estava começando a vencer minha boa vontade.
Os relatórios reuniam informações de diferentes setores da empresa, incluindo contratos relacionados à arquitetura e à engenharia. Enquanto verificava os lançamentos, encontrei uma referência ao concurso Horizon e abri a pasta correspondente para confirmar uma classificação de despesas.
Foi então que reconheci o nome de Sky.
A documentação incluía um resumo das ocorrências administrativas envolvendo as equipes participantes. Entre alterações de cronograma, solicitações técnicas e recursos, havia uma referência à antiga denúncia de plágio.
Minha mão parou sobre o mouse.
Eu me lembrava perfeitamente daquele período. Sky tinha ficado arrasada com a acusação, principalmente porque havia dedicado tanto tempo ao projeto. Na época, suspeitávamos de Victor e Sofia, que já tinham demonstrado ser capazes de prejudicá-la.
Abri o histórico da ocorrência.
O documento reunia o resultado de uma apuração interna posterior, realizada para verificar a origem da denúncia e os materiais apresentados contra Sky. Percorri as primeiras páginas, conferindo as datas e os encaminhamentos, até encontrar a identificação do responsável pelo envio inicial.
Gael Lacerda.
Meu estômago se contraiu.
Li o nome novamente, convencida de que tinha entendido alguma coisa errada. Mas a informação continuava ali, acompanhada da referência ao registro eletrônico utilizado na denúncia.
Gael.
O mesmo homem que havia se relacionado com Sky, frequentado os mesmos ambientes e se apresentado como alguém interessado em ajudá-la.
Apertei os lábios, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. Não sabia se ele tinha agido por ressentimento, por interesse profissional ou por influência do pai. Só sabia que havia participado de uma tentativa de destruir a reputação de uma mulher que confiara nele.
— Sakura?
Minimizei a janela antes de virar o rosto.
Diego estava me observando por cima dos óculos.
— Tudo bem?
— Tudo. Encontrei uma divergência, mas já estou conferindo.
Ele assentiu e voltou ao telefone.
Esperei alguns segundos antes de abrir novamente o documento. Fotografei a referência para não esquecer onde encontrá-la e anotei o número da ocorrência no meu caderno. Ainda precisava compreender o alcance daquela descoberta, mas não pretendia contar nada a Sky antes de ter certeza de como a informação poderia ajudá-la.
Voltei aos relatórios financeiros, tentando controlar a irritação.
Foi quando comecei a perceber outro problema.
Havia valores muito superiores aos que eu esperava encontrar em determinados contratos. Alguns pertenciam a operações internacionais e tinham justificativas perfeitamente razoáveis. Outros apareciam distribuídos entre empresas diferentes, com descrições semelhantes e datas próximas.
Conferi as somas, comparei os períodos e procurei os documentos de referência. Não encontrei uma irregularidade evidente, mas notei que várias movimentações tinham sido registradas durante períodos em que Lorenzo participara diretamente da administração.
A coincidência me incomodou.
Continuei trabalhando por quase uma hora, separando o que precisava ser corrigido e o que exigia apenas conferência adicional. Quando cheguei a um relatório consolidado, encontrei uma solicitação de movimentação financeira de valor extraordinariamente alto.
Quase um bilhão de reais.
Reconheci imediatamente a referência da noite anterior.
Meu coração acelerou, e aproximei o rosto da tela para conferir os números. O relatório não esclarecia se a operação tinha sido concluída. Indicava apenas que a solicitação havia entrado no fluxo de análise e dependia de procedimentos adicionais.
Nathan tinha orientado que não prosseguissem sem a avaliação de Christian ou Diego.
Mas será que alguém havia autorizado depois?
Olhei para meu irmão, que discutia um problema com um funcionário, e senti uma pontada de culpa. Diego estava exausto, trabalhando desde antes do amanhecer, enquanto eu tentava descobrir se havia alguma coisa errada na empresa.
Não queria prejudicá-lo. Muito menos colocar Nathan em uma situação complicada.
Por isso, terminei a conferência dos relatórios que Diego havia me entregue e organizei as divergências em uma planilha separada. Entreguei o resultado ao meu irmão, explicando quais valores precisavam de confirmação.
Ele examinou o trabalho e abriu um sorriso aliviado.
— Sakura, você não faz ideia do quanto me ajudou.
Sorri de volta, mas meus pensamentos continuavam presos àquela solicitação.
Porque agora eu tinha três informações que não conseguia ignorar: Gael havia denunciado Sky, algumas movimentações financeiras mereciam uma análise mais cuidadosa e uma solicitação de quase um bilhão de reais tinha aparecido justamente quando a administração da Blackwood estava sobrecarregada.
Talvez fossem acontecimentos independentes.
Mas, depois de tudo que eu sabia sobre Sérgio Lacerda e a tecnologia roubada de Otávio, estava ficando difícil acreditar em tantas coincidências.
E eu ainda precisava descobrir por que Christian tinha ameaçado o próprio pai para proteger minhas amigas.
Passei a última parte da manhã revisando as divergências que havia separado para Diego. A maioria era simples: despesas classificadas incorretamente, lançamentos duplicados e valores que precisavam ser comparados com os contratos originais. Eram problemas comuns em empresas grandes, principalmente quando diferentes setores trabalhavam com os mesmos dados.
O que me preocupava eram os registros que não se encaixavam nessa explicação.
Algumas empresas apareciam repetidamente em relatórios de períodos diferentes, recebendo pagamentos por serviços semelhantes. Em determinados casos, os valores estavam associados a projetos que já tinham sido encerrados. Em outros, os documentos mencionavam atividades que eu não conseguia relacionar às despesas registradas.
Não era suficiente para acusar ninguém de fraude. Eu sabia disso melhor do que qualquer pessoa. Uma movimentação financeira podia parecer absurda até que alguém apresentasse o contrato, o aditivo ou a justificativa contábil correspondente.
Mesmo assim, havia um padrão que merecia atenção.
Abri uma planilha auxiliar e organizei os lançamentos por empresa, data e descrição. Depois comparei os resultados com os relatórios consolidados que Diego havia me pedido para revisar. Algumas diferenças desapareceram quando considerei ajustes posteriores. Outras continuaram ali, especialmente entre os contratos associados a determinados períodos da administração de Lorenzo.

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