POV/ SAKURA
Fazia três dias que Pablo tinha me chamado para sair.
E fazia três dias que eu encontrava uma desculpa diferente para não responder.
Não era culpa dele. Pablo não tinha insistido, cobrado uma resposta ou transformado o convite em alguma coisa maior do que realmente era. Continuamos conversando normalmente sobre livros, trabalho e coisas idiotas do dia a dia. Naquela manhã, ele tinha mandado uma piada sobre o livro que iniciou nossa conversa e nem sequer mencionou o café outra vez.
Isso conseguia piorar tudo.
Se fosse um idiota insistente, eu poderia simplesmente mandar se ferrar e seguir a vida, mas não. O desgraçado tinha que ser educado.
Joguei o celular na cama e fiquei olhando para ele.
— Eu não vou.
Esperei alguns segundos, como se o aparelho fosse discordar.
— Não preciso ir.
O celular, obviamente, não respondeu.
Levantei e comecei a andar pelo quarto.
— Eu nem conheço esse homem. Quer dizer, conheço mais ou menos. Sei onde trabalha, sei o que lê, sei que é gerente de uma loja e sei que é bonito...
Fiz uma careta.
— Bonito pra caralho.
Minha própria voz dentro do quarto começou a parecer ridícula.
Olhei para a porta para ter certeza de que Diego não estava por perto. Se meu irmão me pegasse discutindo sozinha sobre um homem que conheci pela internet, eu nunca mais teria paz.
Voltei para a cama, peguei o celular e abri a conversa.
Era um café. Só isso.
Não era casamento, sexo ou declaração de amor. Pablo tinha me chamado para sair, e uma pessoa normal provavelmente teria respondido sim ou não no mesmo dia em vez de transformar um convite para tomar café numa crise existencial de setenta e duas horas.
Meu dedo ficou parado sobre a tela.
Pablo não era Nathan.
E talvez esse fosse justamente o motivo de eu precisar ir.
— Mãe, isso é ridículo — murmurei, olhando para cima. — Eu sei que você não pode responder, mas podia pelo menos mandar um sinal.
Esperei alguns segundos.
A lâmpada continuou acesa.
— Pode piscar. Uma vez pra sim, duas pra não.
Nada aconteceu.
— Péssimo atendimento.
Deitei de costas na cama e passei as mãos pelo rosto.
Às vezes eu tentava imaginar o que minha mãe diria se ainda estivesse ali. Provavelmente mandaria eu parar de ser idiota e perguntaria por que continuava deixando uma história que nunca virou namoro decidir se eu podia conhecer outra pessoa.
Nathan tinha feito a escolha dele e eu tinha respeitado.
Não precisava continuar esperando por alguém que nunca me pediu para esperar.
Sentei novamente e peguei o celular.
— É só um café.
Abri o perfil de Pablo mais uma vez.
— Se ele for um assassino, eu descubro lá.
Assim que terminei de falar, balancei a cabeça.
— Não. Isso foi muito burro.
Minha mãe teria concordado.
Olhei as fotos dele outra vez, como se alguma tivesse uma placa escondida com serial killer escrita no fundo. Não encontrei nada além do mesmo homem loiro, bonito e aparentemente normal com quem eu conversava havia semanas.
Respirei fundo e respondi:
Aceito o café. Quando?
Enviei antes que pudesse desistir.
Meu coração acelerou na mesma hora.
— Pronto. Meu Deus, eu marquei um encontro.
Levantei da cama, abri o guarda-roupa e fiquei olhando para as roupas.
— Que roupa eu vou usar?
Passei os olhos pelos cabides.
— Caralho.
A crise seguinte durou quase uma hora.
****
O primeiro encontro foi estranho durante aproximadamente quinze minutos.
Cheguei cedo demais porque ficar em casa esperando estava me deixando nervosa. Escolhi uma mesa, sentei, levantei para ir ao banheiro, voltei, mexi no celular umas vinte vezes e quase mandei uma mensagem inventando alguma desculpa para ir embora antes mesmo de Pablo chegar.
Então ele apareceu.
Pablo era alto, loiro e muito bonito. Eu já sabia disso pelas fotos, mas descobri que era muito mais fácil lidar com a beleza dele através de uma tela.
Ele sorriu assim que me viu.
— Sakura?
— Depende. Você é o Pablo?
Pablo riu.
— Espero que sim, senão eu tô atrasado pro encontro de outra pessoa.
Acabei rindo também, e isso ajudou.
Ele sentou diante de mim e, depois dos primeiros minutos constrangedores, conversar pessoalmente ficou quase tão fácil quanto tinha sido pelo celular.
Falamos sobre livros, trabalho e faculdade. Pablo reclamou dos clientes da loja que experimentavam vinte camisas e acabavam comprando uma meia. Contei sobre um professor que parecia acreditar que dormir era sinal de fraqueza moral.
— Você faz Engenharia porque gosta? — perguntou ele.
— Às vezes eu acho que faço porque tenho algum problema psicológico.
— Justo.
— Mas eu gosto.
— Então o problema psicológico pode ficar como segunda opção.
— Obrigada pelo diagnóstico.
Quando percebi, meu café tinha acabado e eu não tinha olhado para o relógio nenhuma vez.
Na saída, Pablo caminhou comigo e parou antes de nos despedirmos.
— Posso te ver de novo?
Eu poderia ter inventado uma desculpa.
Não quis.
— Pode.
Ele sorriu e não tentou me beijar.
Gostei disso.
No segundo encontro, também não tentou.
No terceiro, estávamos nos despedindo quando Pablo ficou alguns segundos me olhando. Percebi que ele queria se aproximar antes mesmo de fazer qualquer movimento, e meu coração acelerou.
Ele não avançou.
— Posso te beijar?
A pergunta me pegou desprevenida.
Não porque Nathan nunca tivesse perguntado. Na minha primeira vez, ele tinha perguntado tantas vezes que quase o expulsei. A diferença era que Pablo não carregava anos da minha vida junto com aquele beijo. Não havia Diego no meio, doença, segredo ou culpa.

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