POV/ SAKURA
Peguei um pedaço de pão.
— Da próxima vez, fala que eu sei fechar janela.
Diego me olhou desconfiado.
— Vocês brigaram?
Quase engasguei.
— Por quê?
— Porque você tá falando dele como se quisesse atropelar o cara.
— Eu sempre falo assim.
— Não desse jeito.
— Diego, come.
Ele estreitou os olhos.
Por um momento, tive certeza de que continuaria perguntando.
Não continuou.
Agradeci mentalmente.
Nathan não apareceu naquele dia.
Nem no seguinte.
Também não mandou mensagem.
Dessa vez, eu não mandei.
Nos primeiros dias, precisei me impedir.
Pegava o celular por hábito, abria nossa conversa e lembrava da expressão dele quando disse que precisava de Diego na vida dele.
Então fechava.
Depois de algumas semanas, parei de abrir.
Não houve uma grande briga pública. Não bloqueei Nathan, não anunciei para Diego que tinha terminado alguma coisa que, tecnicamente, nunca tinha começado e não fiz questão de fugir quando nossos amigos estavam juntos.
Apenas parei.
Se Nathan chegava, eu cumprimentava.
Se fazia uma piada, às vezes ria.
Se perguntava sobre a faculdade, respondia.
Quando nossos olhos demoravam um pouco mais um no outro, eu era a primeira a desviar.
Não porque tivesse deixado de amá-lo.
Essa parte demorou muito mais.
Eu só tinha entendido que amar Nathan não me obrigava a continuar disponível para ele.
O tempo ajudou.
Minha saúde continuou melhorando e as consultas, que durante anos tinham comandado meu calendário, começaram a ocupar espaços menores da minha rotina. Ainda existiam exames, acompanhamento e cuidados, mas eu já não acordava pensando primeiro em leucemia.
A faculdade tomou esse espaço.
Contabilidade tinha começado como uma escolha possível quando meu corpo ainda não permitia a vida que eu queria. Com o tempo, tornou-se uma coisa que eu também sabia fazer bem.
Gostava de organização, planejamento e números quando eles serviam para resolver alguma coisa concreta. Gostava de perceber erros que outras pessoas deixavam passar e, principalmente, gostava da independência que estudar me dava.
Não era meu sonho de infância.
Engenharia Civil continuava sendo.
Por isso, quando concluí Contabilidade e minha saúde já permitia pensar numa rotina diferente, comecei a pesquisar como voltar para aquele plano.
Diego descobriu antes que eu contasse.
Cheguei em casa numa tarde e encontrei meu irmão sentado diante do meu notebook.
Parei no meio da sala.
— Você tá mexendo nas minhas coisas?
— Seu computador tava aberto.
— Isso não responde.
Diego girou a tela na minha direção.
A página de uma faculdade estava aberta.
— Engenharia Civil?
Tirei a bolsa do ombro.
— Talvez.
— Talvez?
— Tô pesquisando.
Um sorriso apareceu devagar no rosto dele.
— Finalmente.
Franzi a testa.
— Finalmente o quê?
— Você vai fazer o que sempre quis.
— Eu fiz Contabilidade porque eu quis também.
— Eu sei. — Diego fechou o notebook. — Mas você falava de Engenharia desde criança.
Sentei no sofá.

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