POV/ SAKURA
Até a noite em que começou a chover.
Eu estava sozinha em casa quando ouvi o primeiro trovão.
A chuva tinha começado fraca no fim da tarde, batendo nas janelas enquanto eu terminava uma atividade da faculdade. Não dei importância. Porto Alegre tinha dias assim, e eu já não era a adolescente que precisava verificar a previsão do tempo antes de dormir.
Pelo menos era o que gostava de dizer.
Pouco depois das dez, a chuva engrossou.
O vento começou a bater nos galhos das árvores do jardim, e a água escorria pelo vidro da sala em filetes grossos. Diego tinha saído depois do trabalho. Mandou uma mensagem avisando que chegaria tarde e perguntou se eu estava bem.
Respondi que sim.
Não contei sobre a tempestade.
Ele sabia que eu ainda não gostava de trovões, mas eu estava cansada de carregar medos antigos como se ainda tivesse quatorze anos.
Outro clarão atravessou a janela.
Contei mentalmente.
O trovão veio tão forte que meu corpo se contraiu antes que eu pudesse controlar.
Fechei os olhos.
— Ridículo — murmurei para mim mesma.
A televisão estava ligada, embora eu não estivesse prestando atenção. Aumentei o volume e voltei para o notebook.
Outro trovão.
Dessa vez, minhas mãos ficaram frias.
Respirei fundo e continuei tentando ler.
Eu sabia de onde vinha aquele medo. Não tinha nada de racional. Tempestades faziam parte de algumas das lembranças mais antigas da minha infância, e o tratamento tinha piorado tudo. Durante anos, trovão significava acordar assustada, correr para o quarto dos meus pais ou encontrar Diego e Nathan espalhados pela sala.
Nathan sempre percebia.
Às vezes antes de Diego.
Era irritante que, depois de tantos anos, meu corpo ainda lembrasse.
O celular vibrou.
Olhei imediatamente.
Era Diego.
Vai piorar aí. Fecha as janelas do andar de cima.
Respondi:
Já fechei.
Mentira.
Eu nem tinha subido.
Outro clarão iluminou a sala.
O estrondo veio logo depois.
Levantei depressa e fui conferir as janelas, xingando Diego, o clima e principalmente a mim mesma por ainda ficar nervosa com uma coisa tão idiota.
Quando voltei para a sala, alguém bateu à porta.
Parei no meio do corredor.
Olhei para o relógio.
Quase onze.
A campainha tocou.
Meu primeiro pensamento foi Diego.
O segundo foi que Diego tinha chave.
Aproximei-me da porta e olhei pelo visor.
Nathan.
Meu coração fez uma coisa estúpida dentro do peito.
Abri.
Ele estava molhado.
Não encharcado, mas o cabelo cacheado tinha pequenas gotas, e os ombros da jaqueta estavam escuros por causa da chuva. Nathan me olhou de cima a baixo antes de entrar.
— Tá tudo bem?
Segurei a porta.
— Boa noite pra você também.
— Sakura.
— O quê?
Outro trovão explodiu.
Meu corpo inteiro se contraiu.
Nathan ergueu uma sobrancelha.
— Tô ótima — falei.
Ele olhou para mim.
— Claro.
— O que você tá fazendo aqui?
— Vim ver se você tava bem.
— Por causa da chuva?
— Por causa da tempestade.
— É a mesma coisa.
— Não pra você.
Aquilo me irritou.
Também aqueceu alguma coisa dentro do meu peito que eu não queria examinar.
— Eu não tenho mais quinze anos.
— Eu sei.
— Então não precisa atravessar a rua toda vez que começa a chover.
Nathan passou por mim.
— Ótimo. Vou embora.
Fechei a porta.
— Eu não falei pra ir embora.
Ele virou o rosto.
— Então decide.
— Você que apareceu sem ser chamado.
— E você abriu a porta.
— Porque achei que pudesse ser importante.
Nathan começou a sorrir.
— E não sou?
Revirei os olhos.
— Arrogante.
Ele tirou a jaqueta e pendurou perto da porta.
Foi tão natural que meu corpo lembrou de uma época em que Nathan entrava naquela casa sem perguntar.
— Cadê o Diego?
— Saiu.
— Pra onde?
— Não sei.
Nathan me olhou.
— Você não sabe?
— Meu irmão é adulto. Não peço localização em tempo real.
— Evolução impressionante.
— Vai se ferrar.
Ele riu.
O som me atingiu de um jeito diferente.
Fazia muito tempo que eu não ficava sozinha com Nathan sem hospital, luto, exames ou Diego entre nós.
Voltei para o sofá.
Nathan veio atrás.
— Quer alguma coisa?
— Não.
— Água?
— Nathan.
— Café?
— São onze da noite.
— Você estuda até três da manhã.
Olhei para ele.
— Como você sabe?
Nathan apontou para o notebook.
— Olheira, café frio e uma planilha aberta.
— Sherlock Holmes.
— Além disso, Diego reclama.
Claro.
Diego.
Sempre havia uma maneira de ele entrar na conversa.
Nathan sentou na outra ponta do sofá.
— Como tá a faculdade?
— Bem.
— Gostando?
— De algumas matérias.
— Ainda quer Engenharia?
— Quero.
— Então vai fazer?
— Quando conseguir.
Ele assentiu.
— Você vai conseguir.

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