POV/ SAKURA
Nathan parou de mexer a perna. O silêncio ficou pesado na sala, esticado entre nós de um jeito que me deu vontade de engolir as próprias palavras.
— Sakura... — ele começou.
— O quê? Por que você tá com essa cara?
— Por que você tá me contando isso do nada?
— Porque é verdade. Cansei de fingir que minha vida é normal.
Ele passou a mão pelos cachos, soltando um suspiro curto.
— Eu já imaginei que... quer dizer, você acabou de falar que nunca namorou, então não era difícil de deduzir.
Baixe os olhos para minhas próprias mãos, sentindo o rosto esquentar.
— Eu nunca tive ninguém. Ninguém mesmo. Nunca fiquei com ninguém na escola, nunca fui a festas escondida para beijar alguém no escuro... nunca nem encostei nos lábios de outra pessoa.
Quando olhei para ele de novo, a expressão dele tinha mudado completamente. Aquele ar distraído sumira.
— Nunca? — perguntou, a voz saindo mais baixa.
— Não precisa fazer essa cara de quem viu um fantasma.
— Eu não tô fazendo cara nenhuma.
— Tá, sim. Tá com os olhos arregalados.
— Só não sabia que era assim.
— Agora sabe. — Encostei as costas no sofá, o peito subindo e descendo rápido demais. — E quer saber por que eu tô te falando isso bem agora? Porque eu posso morrer daqui a pouco sem saber qual é a sensação de ser beijada de verdade.
O rosto dele endureceu na mesma hora.
— Para de falar assim.
— É a verdade, Nathan.
— Não. — A resposta veio seca, cortante. — Não fala essa merda.
— Você não manda em mim!
— Você não vai morrer.
— Você não sabe! Ninguém sabe!
— Para de decidir isso por mim! — Levantei do sofá de uma vez, sentindo a tontura de sempre passar raspando.
Nathan levantou junto, o corpo tenso.
— Sakura...
— Você não tem noção do que é passar anos da sua vida trancada esperando o resultado de um exame para saber se vai continuar respirando no mês seguinte! Não sabe o que é olhar para todo mundo construindo planos enquanto você tem medo até de comprar um par de sapatos novos. Eu sei que posso melhorar, sei que posso fazer o transplante, entrar na faculdade, viajar e ficar velha. Mas também sei que posso não conseguir. E eu tô cansada de todo mundo usar a minha doença como desculpa para me tratar como se eu fosse de vidro!
Ele não respondeu. Fiquei ali parada, respirando fundo, com o ar queimando na garganta.
— Eu nunca beijei ninguém. Nunca tive namorado. Nunca tive nada.
— Você tem dezoito anos.
— Eu sei exatamente quantos anos eu tenho!
— Então ainda tem tempo.
— Você não sabe se eu tenho! — A voz dele falhou de repente, num som que arranhou o peito. — Para.
Parei. Nathan virou o rosto para o lado. Foi rápido, mas eu vi o brilho da lágrima descendo pela bochecha dele antes que ele levantasse a mão para limpar com pressa, como se quisesse apagar o que tinha feito.
Meu peito deu um baque dolorido. Eu já tinha visto Nathan triste dezenas de vezes. Tinha visto ele preocupado comigo nos dias de internação, irritado com a burocracia dos hospitais, cansado ou assustado. Mas nunca o tinha visto chorar por minha causa. Nunca.
— Nathan... — sussurrei, a raiva evaporando e deixando só um vazio esquisito.
— Você não pode morrer.
— Todo mundo morre, Nathan.
— Você não.
— Por quê? — perguntei, dando um passo na direção dele.
Ele olhou para mim. Os olhos verdes estavam molhados, brilhando sob a luz da sala.
— Porque você é importante pra mim.
Meu coração bateu tão forte que pareceu saltar na garganta.
— Importante?
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo antes de encarar de novo.
— Muito.
Não era a palavra que eu queria ouvir. Eu queria a outra. Aquela que eu guardava havia anos, pesada e entalada no fundo da garganta. Mas, naquela noite, decidi que me contentaria com aquilo.
Dei mais um passo, parando bem na frente dele. O cheiro dele — sabonete misturado com o tecido da blusa de frio — invadiu tudo.
— Eu não quero um estranho — falei baixinho.
Nathan ficou imóvel, os músculos do braço travados.
— Não faz isso comigo, Sakura.
— Fazer o quê?
— Isso. Essa conversa.

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