POV/ SAKURA
Minha mãe chegou pouco depois e quase chorou quando viu meu braço.
Depois descobriu como aconteceu e ficou com raiva.
Depois viu a cara do meu pai.
E precisou virar o rosto para esconder uma risada.
— Você tá rindo? — perguntei, ofendida.
— Não.
— Tá, sim!
— Eu tô nervosa.
— Mãe!
Ela beijou minha testa.
— Desculpa.
Quando finalmente colocaram o gesso, Nathan foi o primeiro a pedir uma caneta.
— Nem pense nisso.
— Todo gesso precisa de assinatura.
— Você quebrou meu braço.
— Tecnicamente, foi a calçada.
— Eu odeio você.
— Já ouvi isso.
Ele segurou meu braço com cuidado e escreveu alguma coisa.
Tentei enxergar.
— O que você escreveu?
Nathan tampou com a mão.
— Depois você lê.
— Nathan!
Ele saiu de perto rindo.
Quando consegui virar o braço, encontrei:
NA PRÓXIMA EU NÃO SOLTO.
Embaixo, ele tinha desenhado uma bicicleta horrorosa.
Diego pegou a caneta depois.
NÃO VAI TER PRÓXIMA.
Fiquei semanas com aquelas duas frases no braço.
Na época, quebrar um osso pareceu uma tragédia.
Doeu para caralho.
Chorei.
Reclamei.
Não consegui dormir direito nos primeiros dias.
Mas havia uma diferença que eu ainda não sabia explicar.
Todo mundo sabia o que aconteceria com meu braço.
Imobilizar.
Esperar.
Fazer acompanhamento.
Tirar o gesso.
A leucemia nunca me dava essa segurança.
Mesmo assim, aquela bicicleta virou uma das minhas lembranças favoritas.
Porque, durante alguns segundos, antes da queda, eu tinha sido apenas uma garota aprendendo a pedalar.
Não uma paciente.
Não uma menina com câncer.
Só Sakura.
E eu tinha Diego correndo atrás de mim.
Nathan também.
Houve outras noites em que os dois ficaram perto.
Os invernos de Porto Alegre sempre foram difíceis para mim. Frio, umidade, dias cinzentos e chuva demais.
E eu tinha um medo completamente irracional de trovão.
Nunca soube de onde veio.
Não lembrava de nenhum acidente, trauma ou história assustadora que justificasse aquilo.
Eu simplesmente tinha medo.
Muito.
Quando começava a trovejar, meu corpo reagia antes da minha cabeça. Meu coração acelerava, minhas mãos suavam e eu ficava esperando o próximo estrondo.
Diego sabia.
Meus pais sabiam.
Nathan também descobriu.
Nas noites em que a chuva ficava forte e ele já estava na nossa casa, muitas vezes acabava dormindo lá.
Algumas vezes porque estava tarde demais para atravessar a rua debaixo da tempestade.
Outras porque Diego chamava.
E houve vezes em que eu suspeitei que Nathan simplesmente ficava porque sabia que eu estava com medo.
Eu nunca perguntava.
Numa dessas noites, acordei com um trovão tão forte que parecia ter estourado em cima da casa.
Sentei na cama.
Outro veio logo depois.
Levantei e fui para o corredor.
A luz da sala estava acesa.
Diego e Nathan dormiam espalhados no sofá e no colchão que tinham jogado no chão depois de passarem horas jogando videogame.
Fiquei parada na porta.
Nathan abriu os olhos.
— Sakura?
— Nada.
Outro trovão.
Dei um pulo.
Ele se sentou.
— Vem cá.
— Não.
— Então fica aí tremendo.
— Eu não tô tremendo.
Um clarão atravessou a janela.
Fechei os olhos.
Nathan levantou uma ponta da coberta.
— Vem logo.
Deitei no outro lado do colchão, deixando espaço entre nós.
Nathan não riu.
Não fez piada.
Só puxou a coberta por cima de mim.
— Quer que eu ligue a televisão?
— Não.
— Tá.
— Você pode conversar?
— Sobre o quê?
— Qualquer coisa.
E ele conversou.
Falou de futebol.
Da escola.
De uma professora que odiava.
De Diego roncando no sofá.
— Eu não ronco — Diego resmungou sem abrir os olhos.
Nathan riu.
— Tá acordado?
— Agora eu tô.
— A Sakura tá com medo.
— Eu não tô!


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