POV: SAKURA
Durante muito tempo, Diego e Nathan foram as duas pessoas que eu procurava quando alguma coisa dava errado.
A diferença era que Diego era meu irmão.
Nathan era o problema que eu fingia não ter.
A leucemia continuou ocupando espaço demais na minha vida. Eu melhorava durante algumas semanas, os exames davam alguma esperança e todo mundo começava a respirar um pouco melhor. Depois alguma coisa mudava e voltavam as consultas, os remédios, as internações e aquela tensão dentro de casa.
Parei de contar o tempo pelo calendário.
Contava pelos períodos em que conseguia ir à escola, pelos dias em que conseguia comer sem vomitar e pelas semanas em que não precisava ficar internada.
Meu cabelo começou a crescer e caiu de novo durante outra fase do tratamento. Na segunda vez, chorei menos.
Não porque doesse menos.
Eu só já sabia o que fazer.
Nathan continuava aparecendo.
Nem todos os dias. Ele tinha a própria vida, estudava, saía, jogava bola e tinha uma quantidade irritante de garotas interessadas nele.
Eu sabia porque algumas apareciam.
O pior era que, conforme ficávamos mais velhos, Nathan ficava ainda mais bonito. Os cachos continuavam bagunçados, os olhos verdes continuavam chamando atenção e o corpo de menino começou a desaparecer.
Eu percebi tudo.
Infelizmente.
Também percebi quando ele começou a sair mais. Uma menina diferente de vez em quando, uma mensagem chegando tarde, alguma garota esperando por ele do outro lado da rua.
Eu odiava todas.
Não tinha direito nenhum de odiar, mas odiava.
Nathan continuava me tratando com o mesmo carinho de sempre.
Esse era o problema.
Minha mãe já tinha me feito entender, anos antes, depois do episódio da pimenta no refrigerante, que o que eu sentia por Nathan não tinha nada de fraternal. Conforme fui crescendo, ficou impossível fingir que ela estava errada.
Eu era apaixonada por ele.
Minha mãe sabia.
Às vezes, me pegava olhando pela janela quando Nathan atravessava a rua e fazia uma expressão que me dava vontade de mandar que parasse.
— Não fala nada.
— Eu não falei.
— Mas pensou.
— Agora eu também não posso pensar?
— Não sobre isso.
Ela ria.
Eu sentia vergonha.
Sinto falta daquela risada.
Mesmo doente, meus pais tentavam fazer com que minha vida não se resumisse a hospital.
Nem sempre funcionava.
Mas houve períodos em que eu estava melhor.
E, quando isso acontecia, Diego e Nathan pareciam considerar uma obrigação inventar alguma merda.
Foi numa dessas fases que decidiram me ensinar a andar de bicicleta.
Meu pai precisava sair por algumas horas e me deixou com Diego.
Antes de fechar a porta, apontou para meu irmão.
— Nada de inventar coisa com a Sakura.
— Pai, eu não tenho cinco anos.
— Eu tô falando com o Diego.
— Eu sei, mas a Sakura também inventa coisa — Diego se defendeu.
Meu pai olhou para mim.
— Nada de inventar coisa com o Diego.
— Tá bom.
— E você tá se sentindo bem?
Revirei os olhos.
— Tô.
— Qualquer coisa, me liga.
— Tá.
— E...
— Pai!
Ele levantou as mãos.
— Fui.
Esperei a porta fechar.
Nathan estava jogado no sofá com Diego.
Cinco minutos depois, eu ouvi:
— Sakura sabe andar de bicicleta?
Olhei para Nathan.
— Sei.
Diego riu.
— Não sabe.
— Sei, sim.
— Com rodinha não conta.
Fechei a cara.
— Eu tinha sete anos!
Nathan se sentou.
— Então vamos descobrir.
— Descobrir o quê?
— Se você ainda sabe.
Diego tirou os olhos do videogame.
— Nem fodendo.
— Por quê?
— Porque meu pai acabou de falar pra não inventar coisa.
Nathan abriu os braços.
— Andar de bicicleta é uma atividade normal.
— Com você nunca é normal.
— Medroso.
— Eu não tô com medo.
— Tá.
— Nathan...
— Tá com medo do seu pai.
Diego pausou o jogo.
— Se der merda, eu vou falar que a ideia foi sua.
— Fechado.
Levantei do sofá.
— Eu quero ir.
Diego olhou para mim.
— Sakura...
— Eu tô bem.
— Você ficou internada mês passado.
— E saí.
— Seu médico falou...
— Meu médico não falou que eu não posso andar de bicicleta.
Ele hesitou.
Foi o suficiente.
— Por favor.
Nathan levantou.
— Eu seguro.
Diego apontou para ele.
— Se ela cair, você morre primeiro.
— Que confiança.
Fomos para a rua.


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