POV: SAKURA
Afastei-me de Nathan antes que ele respondesse e fui para perto das flores deixadas ao lado da cova.
Eu não precisava olhar para trás para saber que ele continuava ali. Conhecia aquela sensação havia anos. Nathan podia estar no outro lado de uma sala cheia e, mesmo assim, meu corpo percebia sua presença antes dos meus olhos.
Era ridículo.
Pior ainda porque não tinha começado agora.
Durante muito tempo, Nathan foi apenas o melhor amigo do meu irmão.
Ou pelo menos foi isso que eu tentei acreditar.
Depois daquele primeiro almoço na nossa casa, ele começou a aparecer com tanta frequência que minha mãe parou de perguntar se ficaria para comer. Apenas colocava outro prato na mesa.
Nathan morava praticamente do outro lado da rua. Às vezes, eu acordava no sábado e ele já estava em casa, jogando videogame com Diego. Em outras, chegava depois da escola, largava a mochila em algum canto e só voltava para casa à noite.
Eu vivia atrás dos dois.
— Sakura, para de seguir a gente — Diego reclamava.
— Eu moro aqui.
— Mas a gente tá indo pro quintal.
— O quintal também é meu.
— Você é muito chata.
Nathan normalmente ria.
— Deixa ela.
Talvez esse tivesse sido o problema.
Nathan sempre me deixava ficar.
Quando os amigos de Diego reclamavam da irmã pequena atrapalhando o jogo, Nathan arrumava alguma coisa para eu fazer. Quando eles jogavam bola, ele me colocava no gol ou me ensinava a chutar. Se comprava sorvete, aparecia com um para mim. Se eu caía e ralava o joelho, era um dos primeiros a se abaixar para ver se eu tinha me machucado.
Uma vez perguntei por que ele não reclamava de mim como os outros.
Nathan deu de ombros.
— Eu sempre quis ter uma irmã.
Aquilo me deixou feliz durante anos.
Até deixar de deixar.
Não sei exatamente quando comecei a odiar a palavra irmã saindo da boca dele.
Talvez aos onze.
Talvez aos doze.
Só sei que chegou um momento em que Nathan bagunçava meu cabelo e eu ficava irritada. Quando me chamava de pequena, eu queria chutar sua canela. Quando alguma garota aparecia na nossa rua procurando por ele, eu passava o resto do dia de mau humor sem entender direito por quê.
Minha mãe entendeu antes de mim.
Eu devia ter uns doze anos quando Nathan apareceu para almoçar acompanhado de uma menina.
Ela era bonita.
Bonita demais.
Cabelo comprido, roupa bonita, unhas pintadas e aquela confiança insuportável de adolescente que já sabia conversar com menino sem parecer uma idiota.
Eu detestei a garota antes mesmo de saber o nome dela.
Durante o almoço, ela ria de absolutamente tudo que Nathan dizia.
Tudo.
Nathan pedia o sal e ela ria.
Nathan comentava alguma coisa com Diego e ela ria.
Nathan bebia água e provavelmente, se tivesse engasgado, ela teria achado engraçado também.
Fiquei observando os dois do outro lado da mesa até minha mãe bater de leve no meu braço.
— Para de encarar.
— Não tô encarando.
— Tá, sim.
Baixei os olhos para o prato.
Cinco minutos depois, fui até a cozinha buscar refrigerante.
Vi o pote de pimenta perto do fogão.
Até hoje eu preferia acreditar que aquilo tinha sido um impulso.
Coloquei um pouco no copo da menina.
Depois mais um pouco.
Misturei.
Voltei para a mesa com a expressão mais inocente que consegui fazer.
Ela tomou um gole.
Começou a tossir quase imediatamente.
Diego levantou assustado.
— Que porra foi essa?
A garota levou a mão à boca, com os olhos cheios de lágrimas.
— Tá ardendo!
Minha mãe pegou o copo, cheirou e virou o rosto devagar na minha direção.
Eu tentei olhar para qualquer outra coisa.
— Sakura.
— Oi?
— Vem comigo.
Fui condenada antes mesmo do julgamento.
Minha mãe me levou para a cozinha e fechou a porta.
— Você colocou pimenta no refrigerante dela?
— Pouquinho.
— Sakura!
— Ela tava rindo demais.
Minha mãe ficou me encarando.
— E desde quando rir é crime?
Cruzei os braços.
— A risada dela é irritante.
— A risada dela ou o fato de ela estar rindo com o Nathan?
Abri a boca.
Fechei.
— Não sei.
Ela puxou uma cadeira e sentou diante de mim.
— Você gosta dele?
— Claro que gosto. Ele é quase meu irmão.
Minha mãe inclinou a cabeça.
— Você colocaria pimenta no refrigerante de uma menina que estivesse conversando com o Diego?
— Não.
A resposta saiu tão rápida que até eu percebi o problema.
Minha mãe tentou segurar o sorriso.
— Então talvez seja bom você começar a pensar na diferença.
— Que diferença?


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