POV/ SKY
— Nós somos amigos — respondi, engolindo o orgulho a seco.
Ele me observou por alguns segundos, desconfiado:
— Apenas amigos?
— Foi o que eu falei.
— Ótimo.
Apertei o lençol com as unhas.
— Agora pode ir embora.
Ele ignorou a minha ordem:
— Rocco é um Blackwood. Eu criei aquele rapaz para entender o peso do nosso sobrenome. Existe um futuro preparado para ele, responsabilidades, patrimônio e compromissos que uma pessoa como você jamais entenderia.
— Uma pessoa como eu?
— Uma Bittencourt.
Meu rosto esquentou de raiva:
— Qual é o problema com o meu sobrenome?
— O seu sobrenome é problema suficiente para uma vida inteira.
— O senhor não sabe nada sobre mim.
— Sei exatamente de onde você veio.
— E daí?
Ele bateu a ponta da bengala no chão:
— Os Bittencourt passaram a vida roubando, enganando e tentando tirar vantagem de pessoas melhores do que eles. São parasitas.
O sangue ferveu na minha cabeça. A imagem do meu pai sendo cremado naquele mesmo momento explodiu no meu peito:
— NÃO FALA DA MINHA FAMÍLIA!
— Sua família? — ele desdenhou.
— O meu pai acabou de morrer! — minha garganta arranhou, a voz falhando em tosse. — Hoje é a despedida dele e eu nem pude estar lá!
O velho continuou imóvel, sem demonstrar a menor piedade:
— Então não fala dele na minha frente! — gritei, com as lágrimas lavando a minha cara.
Ele me encarou com frieza:
— O seu pai causou destruição demais a esta família.
— Ele não tá aqui pra se defender, seu covarde! — minha voz subiu, rasgada. — E eu não vou ficar ouvindo o senhor chamar ele de ladrão no dia do enterro dele!
— Talvez devesse ter pensado nisso antes de morrer.
Meu peito travou.
— Sai...
Ele continuou parado.
— Sai do meu quarto agora!
— O seu pai morreu tarde.
Fiquei sem ar. As palavras dele ecoaram na sala como um tiro.
— O... o quê?
— Você ouviu muito bem.
Meu corpo inteiro começou a tremer de pavor e ódio:
— Não fala isso...
— Homens como ele só deixam sujeira por onde passam. E depois os filhos aparecem querendo ocupar lugares que não lhes pertencem.
— Cala a boca...
— Fique longe do Rocco.
— CALA A BOCA!
O monitor cardíaco na parede disparou num apito agudo.
— Ele não pertence a você, garota. Nunca pertenceu.
— EU MANDEI O SENHOR CALAR A BOCA!
Tentei impulsionar o meu corpo para a frente para me sentar na cama.
No mesmo segundo, uma dor lancinante atravessou o fundo do meu ventre.
Travei no meio do movimento.
O ar sumiu dos meus pulmões com a violência da pontada.
— Ai!...
Levei as duas mãos para a barriga num reflexo cego.
Outra cólica veio logo atrás. Mais funda. Dilacerante.
— Não...
O pânico tomou conta de mim num choque gelado.
— Não, não, não, não...
Senti uma onda quente e úmida escorrer com força por entre as minhas coxas.
Puxei o cobertor para o lado com a mão trêmula.
O sangue estava lá. Escuro, manchando o lençol branco de novo.
— Meu bebê...
Ergui os olhos em desespero para o avô de Rocco:
— Chama alguém! — implorei, o queixo batendo.
Ele não se mexeu um milímetro. Apenas me olhou de cima.
— Chama a enfermeira, pelo amor de Deus!
Outra contração me dobrou ao meio sobre a cama:
— AAAAAI! MEU DEUS!
Estiquei o braço com todo o desespero do mundo para alcançar a campainha de emergência na parede, mas o fio estava enrolado longe da cabeceira. Meus dedos só acertaram o suporte do soro, que balançou perigosamente.
— POR FAVOR, CHAMA AJUDA!
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