POV/ CHRISTIAN
O som da terra batendo sobre a madeira foi pior do que eu esperava.
Não porque houvesse alguém dentro daquele caixão.
Justamente porque não havia.
Moon apertou os dedos no meu casaco quando outra pá de terra caiu. O corpo dela tremeu inteiro contra o meu, e eu passei o braço ao redor da sua cintura antes que as pernas dela cedessem.
— Pai... — saiu tão baixo que quase não ouvi.
Fechei os olhos por um segundo.
Eu tinha saído de um sonho para um pesadelo rápido demais.
Na terça de manhã, eu ainda estava acordando ao lado da mulher que amava, olhando para a aliança na mão dela e pensando que, pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa na minha vida estava exatamente onde deveria estar.
Agora era quarta-feira, o fim da tarde começava a esfriar, eu não lembrava da última refeição que tinha feito e não dormia desde antes de levar Moon de volta para Porto Alegre.
E estava enterrando um homem vivo.
— Eu tô aqui — murmurei, apertando Moon contra mim.
Ela soluçou mais forte.
Aquilo estava acabando comigo.
Eu queria segurar o rosto dela e contar. Queria dizer que ela não precisava chorar daquele jeito. Que não havia ninguém naquele caixão. Que o pai dela ainda respirava.
Mas eu não podia.
Não enquanto eu não soubesse quem tinha tentado matá-lo.
Passei a mão pelas costas dela devagar e levantei os olhos.
Poucas pessoas tinham vindo.
Nathan estava alguns metros à frente, estranhamente sério. Sakura permanecia ao lado dele, com os olhos inchados e o rosto vermelho de tanto chorar. Diego estava próximo dos dois, quieto, observando tudo.
Alex também tinha aparecido.
Eu sabia quem ele era pelas histórias de Moon e pelas poucas vezes em que nossos caminhos tinham se cruzado. Estava mais afastado, sozinho, com as mãos enfiadas nos bolsos e o rosto molhado.
Gael estava ali também.
Havia outras pessoas que eu não conhecia. Homens e mulheres mais velhos que provavelmente tinham trabalhado com Otávio Bittencourt antes do acidente, quando o sobrenome dele ainda significava alguma coisa no meio da arquitetura.
Sky era a ausência mais dolorosa.
Continuava no hospital.
Rocco também.
Engoli em seco.
Então meus olhos chegaram aos três homens parados mais afastados.
E permaneceram neles.
Paulo Gouveia.
Sérgio Lacerda.
Lorenzo Blackwood.
Meu pai.
Meu corpo ficou imóvel, embora minha mão continuasse acariciando automaticamente as costas de Moon.
Não havia nada de errado em meu pai estar ali.
Era isso que eu tentava dizer para mim mesmo.
Otávio Bittencourt tinha feito parte de uma história que, de alguma maneira, também atravessava a nossa família. O acidente de dez anos atrás tinha matado os pais de Rocco. Tinha matado meu irmão. Tinha deixado Ravi marcado pelo resto da vida.
Meu pai tinha motivos de sobra para aparecer.
Gouveia também.
Lacerda também.
Então por que aquilo estava me incomodando tanto?
Talvez fosse o cansaço.
Eu já estava funcionando à base de café, adrenalina e uma quantidade absurda de preocupação. Meu cérebro parecia quente dentro do crânio. Meus olhos ardiam. Minha nuca doía. Eu tinha passado as últimas horas resolvendo hospital, documentação, Moon, Sky, telefonemas e uma mentira grande demais para caber dentro da minha cabeça.
Talvez eu estivesse vendo coisas onde não existiam.
Mesmo assim, continuei olhando.
Paulo falou alguma coisa perto do ouvido de Sérgio.
Meu pai desviou os olhos da cova.
E então aconteceu.
O canto da boca dele se mexeu.
Foi rápido.
Tão rápido que, se eu piscasse, perderia.
Um sorriso?
Não.
Talvez não.
Talvez fosse apenas uma contração. Uma reação qualquer. Uma palavra que Gouveia tinha dito.
Mas senti alguma coisa apertar no fundo do meu estômago.
Meu pai ergueu os olhos.

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