POV/ SKY
Moon sentou na beirada do colchão, ao meu lado.
— Eu contei pra ele.
Ela franziu a testa:
— Pro Rocco?
— Contei do bebê.
Meu queixo tremeu.
— Ele nem podia me ouvir direito por causa da sedação, mas eu contei.
Moon segurou minha mão com carinho:
— Então ele foi o primeiro a saber.
Assenti devagar:
— Foi.
Fechei os olhos.
Pelo menos aquilo ninguém podia tirar de mim.
Os dois dias seguintes passaram devagar demais.
Meu corpo começou a melhorar antes da minha cabeça.
A dor da concussão diminuiu. A tontura praticamente desapareceu. O sangramento foi ficando cada vez menor, virando só uma borra fraca, e as cólicas se tornaram mais espaçadas.
A equipe médica continuava acompanhando a gravidez com cautela, sem me dar certezas que ninguém podia dar naquele momento.
Eu obedecia a tudo.
Tomava os remédios nos horários certos.
Comia mesmo sem sentir gosto nenhum na comida.
Bebia água.
Dormia o máximo que conseguia.
Não colocava os pés fora da cama sem autorização.
Toda vez que sentia vontade de discutir ou chorar de raiva, colocava a mão na barriga:
— Tá bom. Sua mãe vai se comportar.
Comecei a conversar com o bebê.
Muito.
Talvez até demais.
— Você puxou seu pai e já começou mandando em mim antes da hora.
Ou então:
— Não acostuma, não. Quando você nascer, quem manda sou eu.
Eu mesma sabia que era mentira.
Se aquela criança tivesse metade da teimosia e da marra do Rocco, eu estava ferrada.
Às vezes conseguia soltar um meio sorriso com o pensamento.
Mas logo em seguida lembrava do meu pai e o choro voltava a rasgar.
Moon e Christian passaram aqueles dois dias inteiros entrando e saindo do hospital.
Resolveram a papelada da funerária.
Prestaram depoimento na perícia do incêndio.
Compraram as roupas e produtos de higiene que nós duas precisávamos com urgência.
Cuidaram da despedida e da cremação.
Eu odiava aquilo do fundo da alma.
Odiava ver a Moon chegar acabada de cansaço enquanto eu continuava deitada ali sem poder mover um músculo.
Odiava precisar perguntar o que estavam fazendo com o corpo do nosso pai.
Odiava escolher coroa de flores olhando fotografias na tela de um celular emprestado.
Odiava não ter uma única roupa minha.
Não ter mais uma casa.
Não ter nem uma escova de dentes que tivesse sido minha antes daquela terça-feira maldita.
Eu era a irmã mais velha.
Durante anos inteiros, tinha me convencido de que precisava dar conta de tudo para proteger a Moon.
E agora era ela quem precisava carregar o mundo nas costas por nós duas.
Na manhã marcada para a despedida do meu pai antes da cremação, acordei antes das sete.
Fiquei horas olhando para o teto branco.
Eu não tinha recebido autorização médica para sair do hospital de jeito nenhum.
A médica foi irredutível: disse que eu não podia passar horas fora, encarar o trajeto de carro e toda a carga emocional daquele momento enquanto o descolamento da placenta ainda estava cicatrizando.
Tentei argumentar.
Chorei.
Implorei de joelhos na cama.
Não adiantou.
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