POV/ SKY
Passei boa parte da tarde sozinha.
Dormia por alguns minutos, acordava, mexia no celular, chorava, tentava comer alguma coisa e voltava a colocar a mão na barriga.
O hospital parecia frio demais.
Minha pele arrepiava toda vez que alguém abria a porta.
No fim da tarde, a mesma enfermeira que vinha cuidando de mim entrou para trocar o soro.
Esperei ela terminar.
— Posso pedir uma coisa?
Ela me olhou desconfiada.
— Depende.
— Eu quero ver o Rocco.
— Sky...
— Eu não vou andar.
— Você precisa de repouso.
— Cadeira de rodas.
Ela suspirou.
— A UTI tem regras.
— Cinco minutos.
— Não depende só de mim.
— Então pergunta.
Minha garganta começou a fechar.
— Por favor.
Ela ficou me olhando.
— Eu preciso ver ele vivo.
A última palavra saiu quase sem voz.
A expressão dela mudou.
— Vou falar com a equipe.
Demorou.
Achei que ela não voltaria.
Quando apareceu novamente com uma cadeira de rodas, quase chorei antes mesmo de sair da cama.
— Visita curta.
— Tá.
— Você não vai levantar.
— Tá.
— Se sentir tontura, dor, cólica ou qualquer coisa, me fala.
— Falo.
— E tenta não se agitar.
— Essa parte eu não prometo.
Ela balançou a cabeça.
Com ajuda, passei da cama para a cadeira. Minhas pernas estavam fracas depois de tanto tempo deitada, e o chão frio contra a sola dos meus pés provocou um arrepio que subiu até minhas costas.
A enfermeira cobriu minhas pernas.
Passei a mão na barriga.
— A gente vai ver seu pai.
Parei.
Pai.
Rocco era pai.
Meu Rocco.
Meu SENHOR ARROGANTE.
Meu engenheiro insuportável.
Pai do meu filho.
Meus olhos arderam.
— Não começa agora — murmurei para mim mesma.
A enfermeira ouviu.
— O quê?
— Nada. Tô brigando comigo.
Ela começou a empurrar a cadeira.
Antes de entrarmos na UTI, parou.
— Preciso te explicar como ele está.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Ele piorou?
— Não. Continua estável.
Soltei o ar.
— Então fala.
— Ele inalou muita fumaça e ar muito quente durante o incêndio. Isso irritou e lesionou as vias respiratórias. Por segurança, ele está intubado e sedado enquanto recebe tratamento e os médicos acompanham a recuperação respiratória.
— Coma induzido?
— É uma sedação profunda controlada pela equipe.
— Ele vai acordar?
— Quando for seguro, os médicos vão reduzir os sedativos e avaliar como ele responde.
Apertei o cobertor.
— Ele vai ficar bem?
Ela hesitou apenas o suficiente para eu perceber.
Meu coração acelerou.
— Ele está respondendo ao tratamento, Sky. Isso é o que posso te dizer.
Assenti.
Não era uma promessa.
Mas era alguma coisa.
— Posso tocar nele?
— Melhor não mexer nos curativos nem nos equipamentos. Fica perto e conversa com ele.
— Ele escuta?
— Não dá pra garantir.
— Vou falar mesmo assim.
Ela abriu a porta.
O ar condicionado frio da UTI bateu no meu rosto.
Então eu vi Rocco.
Meu corpo inteiro gelou.
O homem que eu conhecia parecia grande demais para aquela cama e, ao mesmo tempo, vulnerável de um jeito que eu nunca tinha visto.
Havia um tubo preso à boca dele, ligado ao respirador. Curativos cobriam parte dos braços, do ombro e uma região próxima ao pescoço. Fios saíam debaixo do lençol e seguiam para os aparelhos ao redor. O peito subia e descia no ritmo da ventilação.
Rocco nunca ficava quieto daquele jeito.
Mesmo dormindo, ele se mexia.
Resmungava.
Me puxava.
Ocupava espaço.
Ali, não.
A enfermeira aproximou minha cadeira e travou as rodas.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Rocco?
Nada.
Meu nariz ardeu.
— Oi, amor... meu senhor convencido e arrogante.
Tentei sorrir.
Não consegui.
— Sou eu.
O respirador continuou funcionando.
Aproximei a mão da dele, mas parei antes de tocar.
— Você tá uma merda.
Uma risada pequena escapou junto com o choro.
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