POV: SKY BITTENCOURT
Moon voltou perto do horário do almoço.
Reconheci que alguma coisa tinha mudado antes mesmo que ela falasse.
Minha irmã estava usando uma calça preta simples, uma blusa que eu nunca tinha visto e um tênis completamente novo. O cabelo estava preso de qualquer jeito, havia olheiras profundas debaixo dos olhos e ela carregava duas sacolas nas mãos.
Olhei das roupas para as sacolas.
— Onde você tava?
Moon fechou a porta com o pé.
— Resolvendo umas coisas.
— Que coisas?
Ela colocou uma das sacolas sobre a poltrona.
— Primeiro, eu trouxe algumas roupas pra você. Roupa íntima, uma calça, duas blusas, pijama... Peguei o básico porque não sabia quanto tempo você ainda vai ficar aqui.
Franzi a testa.
— Você comprou?
Moon ficou quieta por um segundo.
Foi suficiente.
Senti um frio correr pelos meus braços.
— Não sobrou nada?
Ela puxou a cadeira para perto da cama e sentou.
— A perícia ainda não liberou o apartamento, Sky. Mas já falaram com o Christian. Foi perda total.
Olhei para ela sem conseguir reagir.
— Total quanto?
Moon respirou fundo.
— Total.
Minha pele arrepiou.
— Nem os quartos?
Ela balançou a cabeça.
— O fogo se espalhou muito. E uma parte da estrutura desabou. Mesmo o que não queimou foi destruído por calor, fumaça, água...
— As nossas roupas?
— Não.
— Meus livros?
Moon baixou os olhos.
— Não.
— As coisas do pai?
A resposta demorou.
— Também não.
Virei o rosto para a janela.
Meu apartamento tinha desaparecido.
Minha cama.
Minhas roupas.
Meus livros.
As coisas da Moon.
As coisas do meu pai.
As poucas lembranças físicas que ainda tínhamos da nossa mãe.
Tudo.
Aquele lugar tinha sido uma porcaria muitas vezes. Pequeno, apertado, velho, cheio de problema. Eu tinha reclamado daquele apartamento centenas de vezes.
Mas era a nossa casa.
E agora nem aquilo existia.
Olhei novamente para as sacolas.
— E essa roupa sua?
— O Christian me levou para comprar algumas coisas de manhã.
— Você não tem mais nada também.
Moon deu de ombros.
— Tenho o que eu tô vestindo.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Enquanto eu dormia dopada numa cama limpa, minha irmã tinha acordado sem casa, sem roupa e sem pai e tinha precisado sair para comprar calcinha e escova de dentes porque até isso o fogo tinha levado.
— Desculpa.
Ela levantou os olhos.
— Pelo quê?
— Por você estar resolvendo tudo.
— Sky...
— Eu devia estar com você.
— Você tá internada.
— Eu sou sua irmã mais velha.
— E daí?
— E daí que eu devia cuidar de você.
Moon se inclinou para a frente.
— Você quase morreu.
— Você também tava lá.
— Mas eu não tô internada.
— E perdeu o pai igual a mim.
A frase saiu e nós duas ficamos quietas.
Igual a mim.
Não.
Nosso pai.
A dor não era só minha.
Moon tinha perdido o pai e, mesmo assim, estava cuidando de roupa, documentos, perícia, hospital e tudo o que eu não conseguia fazer.
Meus olhos encheram.
— Eu sou muito inútil.
— Para com isso.
— Toda vez alguém tem que resolver minha vida.
— Você passou anos resolvendo a nossa.
— Mas agora...
— Agora você tá machucada.
Ela segurou minha mão.
— E tá grávida.
Olhei para nossas mãos.
— Eu queria conseguir ajudar.
— Então ajuda ficando nessa cama e não fazendo nenhuma merda.
Soltei uma risada fraca pelo nariz.
— Delicada.
— Aprendi com você.
Passei a mão na barriga.
— A médica examinou.
Moon ficou séria na hora.
— E?
— Continua aqui.
Os olhos dela encheram.
— Sério?
Assenti.
— Ainda é muito cedo. Ela não prometeu nada. Vai ter que acompanhar.
Moon cobriu a boca.


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