POV/ SKY
Um zumbido agudo tomou conta dos meus ouvidos, engolindo todos os barulhos ao redor.
Tentei puxar o ar, mas só veio cinza e fumaça grossa, queimando a minha garganta e me fazendo tossir com gosto de sangue.
O fogo começou rápido, subindo pelas paredes da cozinha. As chamas brotaram onde a fiação faíscou, lamberam o papel de parede e subiram em direção ao forro de gesso do teto, onde o bolsão de gás estava preso. Em seguida, desceram com tudo sobre o fogão e os armários. Em segundos, o fogo alcançou o piso de madeira encharcado com o álcool que a diarista tinha espalhado.
O chão da cozinha virou uma linha incandescente que começou a correr em direção ao corredor, estalando o taco seco.
Pedaços de gesso em brasa começaram a despencar do teto da cozinha, levantando labaredas altas.
— Sky... — a voz fraca e arrastada do meu pai veio do primeiro quarto, abafada pela fumaça.
— PAI! — tentei berrar, mas da minha boca só saiu um som rouco e engasgado.
A tosse veio em espasmos secos, trancando a minha respiração.
Apoiei as mãos no chão para tentar levantar, mas os cacos de vidro da janela da sala rasgaram a minha pele. Senti a pontada afiada na palma da mão esquerda; a carne abriu e o sangue pingou no taco. Não dei bola para a dor. A minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a estourar, tomada por um zumbido agudo e ensurdecedor.
Levei a mão direita até a têmpora. O ouvido latejava, queimando por dentro. Quando passei os dedos atrás da orelha, senti um líquido morno e viscoso escorrendo pelo pescoço. Puxei a mão. Meus dedos estavam manchados de sangue vivo misturado com fuligem preta.
A fumaça espessa começou a descer do teto em ondas quentes. O cheiro de queimado, borracha derretida e gás entrava cortando pelas minhas narinas, me fazendo ter ânsia de vômito.
Fiquei de pé com as pernas bambas. O chão parecia torto. Cambaleei pelo corredor, batendo o ombro contra a parede e me apoiando com a mão ensanguentada no concreto para não cair.
Entrei no quarto do meu pai.
Ele estava deitado na cama, com o peito subindo e descendo num ritmo descompassado, os olhos arregalados em pânico na minha direção.
— Pai! — cheguei perto da cama, tossindo grosso, a garganta em carne viva. — A gente tem que sair daqui! Agora!
Ele tentou mexer o queixo, a voz saindo engasgada e fraca:
— O... que... foi?
— O fogo... teve uma explosão na cozinha, não sei o que aconteceu! — falei rápido, passando os braços trêmulos por baixo dos ombros dele, tentando puxar o peso do corpo dele para a beirada do colchão.
Minhas mãos não tinham força. O vidro rasgado ardia e o peso dele era impossível para mim sozinha.
Meu pai franziu a testa, fazendo força para mexer a boca:
— Foge... — ele murmurou, puxando o ar com dificuldade. — Vai embora, filha... foge.
— Eu não vou deixar você aqui! — gritei, puxando o lençol com desespero, sentindo as lágrimas quentes abrirem caminhos limpos no meio da cinza do meu rosto. — Segura em mim, pai! Faz força!
— Vai embora... minha filha... vai...
— Não! Não posso!

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