POV: SKY BITTENCOURT
Rocco nem olhou para trás. Deu meia-volta no patamar da escada e correu direto para dentro do apartamento em chamas.
No segundo em que ele passou da porta, um segundo estrondo estourou lá dentro.
O gás acumulado na cozinha pegou de vez. O fogo cuspiu alto pelo vão e o forro de gesso e os tijolos da entrada desabaram em cima da passagem, fechando tudo em pedras e chamas.
— ROCCO! PAI! — o berro rasgou a minha garganta.
Christian não esperou. Ele me travou contra o corpo dele, virou de costas e desceu os lances de escada correndo comigo esperneando, batendo as pernas no corrimão e na parede. Moon descia na nossa frente aos prantos, com as duas mãos na boca, tremendo inteira.
Saímos pela porta da frente do prédio.
O ar da rua bateu seco na minha cara. A fumaça preta saía grossa pelas janelas do segundo andar, cobrindo o céu. A rua estava um caos. Os vizinhos do outro lado do prédio tinham descido correndo para o asfalto, apontando para o fogo e gritando em desespero.
Christian tentou me segurar em pé, mas empurrei o peito dele com toda a força que me restava:
— O MEU PAI TÁ LÁ DENTRO! — gritei, a voz engasgada na fuligem. — O ROCCO VOLTOU PRA LÁ! ALGUÉM TIRA ELES DE LÁ!
O Rocco. Ele tinha entrado de novo. E se ele não conseguisse sair?
— Não... por favor... não... — as palavras saíam soltas da minha boca, em pânico.
— Sky, calma! — Moon chorava, tentando segurar os meus braços.
— Espera, Sky, por favor — Christian pediu, tentando me firmar.
— Isso não pode estar acontecendo... não pode!
Despenquei e bati as mãos fechadas no asfalto quente, uma, duas vezes, em desespero puro, sujando as palmas de cinza e rasgando a pele onde o vidro já tinha cortado.
— TIRA MEU PAI DE LÁ! TIRA O ROCCO!
Uma pontada funda fisgou o pé da minha barriga, uma cólica esquisita que me fez dobrar o tronco para a frente. Levei a mão esquerda direto para o abdômen, apertando o tecido da calça contra a pele dolorida.
No mesmo segundo, o estômago revirou numa golfada quente.
Não deu tempo de segurar. Curvei o corpo para o lado e vomitei no asfalto, um líquido azedo queimando a minha garganta que já estava em carne viva pela fumaça.
— Ajuda ela! — Moon berrou para os homens da ambulância, a voz estridente de pavor. — Ajuda a minha irmã, por favor! Ela tá passando mal!
Um dos paramédicos correu na nossa direção, largando a prancheta no chão e se abaixando do meu lado:
— Calma, moça. Respira fundo. Deita ela aqui no chão, cuidado com a cabeça!
Eu não queria deitar. Queria levantar, queria subir aquelas escadas, mas meu corpo não obedecia mais.
A cabeça parecia que ia rachar ao meio. O zumbido no meu ouvido aumentou tanto que engoliu as vozes ao redor. O sangue que descia do corte atrás da orelha escorria quente pelo meu pescoço, misturado com o suor frio da minha testa. A barriga repuxava numa dor surda e as minhas pernas ficaram moles como pano.
Meus braços cederam no asfalto. O peito subia e descia rápido, mas o ar simplesmente não entrava.
Ergui os olhos com esforço para olhar a janela do segundo andar. A fumaça preta cobria tudo. Pessoas se juntavam ao redor, virando vultos sem foco contra o sol.
Tentei puxar o ar mais uma vez, mas a vista escureceu pelas bordas, o barulho das sirenes sumiu como se estivesse afundando na água e a escuridão me puxou para baixo de vez.
***
Acordei com um barulho fino e repetitivo perto da minha cabeça.
Bip.
Bip.
Bip.
Abri os olhos, mas fechei de novo no mesmo instante.
A luz do teto estava forte demais.
Tentei engolir e senti a garganta seca, arranhando por dentro. Passei a língua pelos lábios. Também estavam secos. Meu corpo parecia pesado contra o colchão e havia uma dor forte na lateral esquerda da cabeça.
Respirei devagar.
O ar entrou pelo nariz com ajuda de alguma coisa.
Levei a mão até o rosto e meus dedos bateram em dois tubos finos.
Oxigênio.
Abri os olhos outra vez.
Demorei alguns segundos para conseguir enxergar direito.
Teto branco.
Lâmpada.
Parede branca.
Uma cortina azul.
O suporte de soro do meu lado.
Hospital.
Franzi a testa.
Por que eu estava num hospital?
Tentei virar a cabeça.
A dor veio na mesma hora.
— Ai...
Parei.
Meu ouvido esquerdo estava estranho.
Havia um chiado constante lá dentro. Quando mexi a cabeça, o som ficou ainda mais abafado, como quando entrava água no ouvido durante o banho e eu passava vários minutos tentando tirar.
Levei a mão devagar até a orelha.
Encontrei um curativo.
Passei os dedos pela gaze sem entender.
— Sky?
A voz veio do meu lado direito.
Virei os olhos.
Moon estava sentada numa poltrona ao lado da cama.
Demorei alguns segundos para reconhecer minha própria irmã.
O cabelo dela estava preso de qualquer jeito. A roupa tinha manchas escuras. Os olhos estavam inchados, muito vermelhos, e havia marcas secas de lágrimas no rosto. Ela segurava um terço azul entre as mãos.
— Moon...
Minha voz quase não saiu.
Ela deu um pulo.
O terço escapou dos dedos e caiu no chão.
— Sky?
Moon levantou tão rápido que bateu a perna na poltrona.
— Ai, meu Deus... Sky.
Ela veio para perto da cama e pegou minha mão.
Os dedos dela estavam gelados.
— Você acordou. Meu Deus... você acordou.
Olhei para ela sem entender.
— Moon...
— Que bom... que bom...
Ela começou a chorar.
Aquilo me assustou.
Tentei apoiar os cotovelos no colchão.
— Não!
Moon colocou as mãos nos meus ombros.
— Não levanta. Não, não... fica aí.
— O quê?
— Fica deitada.
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