POV: SKY BITTENCOURT
O corredor do último andar da sede da Blackwood estava vazio.
Caminhei entre as divisórias de vidro segurando uma pasta preta contra o peito, o barulho dos meus passos ecoando pelo piso de granito polido. A porta da sala da presidência estava entreaberta.
Empurrei a madeira com a ponta dos dedos.
Rocco estava de pé atrás da mesa de mogno, de costas para a janela panorâmica. Jussara estava na frente dele, com o casaco impecável e as duas mãos espalmadas no peito da camisa social dele. Antes que eu pudesse abrir a boca para falar qualquer coisa, ele segurou a nuca dela com força, puxou a mulher contra o próprio corpo e afundou a boca na dela em um beijo desesperado.
Puxei o ar com força e o mundo girou.
Acordei com um solavanco na cama, o peito subindo e descendo rápido, a garganta seca feito lixa.
Pisquei três vezes encarando o teto escuro da suíte. As cortinas grossas barravam a maior parte da luz do fim de tarde, deixando o quarto mergulhado numa penumbra cinzenta.
Um pesadelo.
Tinha sido a porra de um pesadelo.
O alívio durou exatamente dois segundos antes da raiva tomar conta de cada terminação nervosa do meu corpo.
Virei o rosto no travesseiro. Rocco estava deitado de lado, dormindo com a respiração pesada e compassada, um braço esticado por cima do meu quadril e a calça de moletom cinza ainda vestida. O cabelo escuro dele estava todo bagunçado, a boca entreaberta e os traços da tinta preta na testa dele já quase sumindo por causa do banho que tomamos mais cedo.
A paz daquele homem dormindo enquanto a minha cabeça ardia foi a gota d'água.
Ergui a mão direita e desci um tapa estalado no peito nu dele.
— Ai! — Rocco abriu os olhos no susto, piscando atordoado contra a penumbra.
— Cachorro! — dei outro tapa no braço dele.
Ele segurou meus dois pulsos no ar em um reflexo rápido, os dedos grandes fechando como algemas ao redor da minha pele. O corpo dele se esticou na cama, o rosto confuso se aproximando do meu:
— O que foi? O que aconteceu? Tem alguém na casa?
— Você! — tentei puxar os braços, sem sucesso. — Você aconteceu!
Rocco franziu a testa, a voz grossa ainda arrastada pelo sono:
— Eu? O que foi que eu fiz, Sky? Eu estava dormindo.
— Você estava beijando aquela herdeira desgraçada na mesa da presidência da sua empresa!
Ele ficou me encarando em silêncio por três segundos inteiros.
A expressão tensa de quem achava que estávamos sob ataque foi se desmanchando aos poucos. O canto da boca dele subiu devagar, desenhando um sorriso torto e preguiçoso:
— Você teve um pesadelo?
— Não ri da minha cara, Rocco!

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