POV/ ROCCO
Ela hesitou.
O canto da boca quase se mexeu.
Quase.
Mas a raiva ganhou.
Jogou a almofada mesmo assim.
Peguei no ar.
— Acabou o estoque?
— Infelizmente.
Coloquei as duas no chão.
— Se quiser continuar, é melhor bater em mim.
Sky arregalou os olhos.
— O quê?
— Com a mão.
— Você está me dando autorização para te bater?
— Estou começando a achar que não deveria autorizar mais nada hoje.
— Finalmente uma decisão inteligente.
Ela esfregou o rosto.
A raiva estava diminuindo, mas os olhos continuavam brilhando.
— A comida chegou — falei.
Sky balançou a cabeça.
— Não quero.
— Você estava morrendo de fome.
— Perdi.
— Pedi exatamente aquela mexicana apimentada que você queria.
— Meu estômago morreu, junto com meu humor.
Aquilo tirou qualquer vontade que eu ainda tivesse de brincar.
Aproximei-me devagar.
Dessa vez, Sky não me impediu.
Passei os braços pela cintura dela.
O corpo ficou duro contra o meu por um segundo.
Depois cedeu.
Sky enterrou o rosto no meu peito e soltou o ar.
Abracei mais forte.
— Eu te amo.
Ela não respondeu imediatamente.
Passei a mão pelos cabelos úmidos.
— Aquela mulher não muda nada do que aconteceu aqui hoje. Nada.
Os dedos dela seguraram a lateral do meu moletom.
— O que ela queria?
A pergunta saiu baixa.
— A verdade.
Afastei o rosto o suficiente para enxergar os olhos dela.
— Quero a verdade inteira, Rocco. Não me dá uma versão bonitinha só porque você acha que eu vou surtar.
Engoli em seco.
Ela tinha razão.
— O prazo mudou.
Sky ficou imóvel.
— Que prazo?
— Do acordo.
Senti os dedos dela apertarem meu moletom.
— Meus avós anteciparam a venda dos ativos da Inglaterra. Eles querem anunciar na segunda-feira.
— E o que isso tem a ver com ela?
— Para conseguirem a valorização que esperam antes da venda, o projeto da Jussara e o alinhamento entre as famílias precisam ser apresentados antes.
Sky se afastou um pouco.
— Apresentados como?
Ali estava a parte ruim.
— Uma coletiva.
Ela piscou.
— Coletiva.
— Na sexta-feira.
— Você e ela.
— Sim.
A mandíbula da Sky ficou rígida.
— Fingindo que estão noivos.
— Sim.
Ela soltou meus braços e deu dois passos para trás.
— Ah.
— Sky...
— Não.
Passou a mão pelo rosto.
— Eu estou processando.
Fiquei quieto.
Ela respirou fundo.
— Então eu tenho cinco dias para me preparar psicologicamente para assistir outra mulher sentada do lado do meu noivo dizendo para o país inteiro que ele é noivo dela.
A frase me acertou no peito.
— Eu sei como isso soa.
— Não, você não sabe.
— Talvez não.
Ela olhou para mim.
— Mas eu sei que é uma merda — continuei. — E sei que estou te pedindo uma coisa que eu não gostaria de fazer se estivesse no seu lugar.
Os olhos dela ficaram marejados.
— Eu vou ter que ver vocês juntos?
— Só o necessário.
— Ela vai tocar em você?
— Não se eu puder impedir.
— Rocco.
— Sky, eu não vou beijar aquela mulher. Não vou dormir com ela. Não vou transformar uma encenação empresarial em relacionamento. Vou cumprir exatamente o mínimo necessário para o acordo terminar.
Ela respirou pela boca.
— E quando termina?
— Se tudo correr como planejado, muito antes do que a gente imaginava.
Segurei as mãos dela.
— A venda é anunciada na segunda. Se os ativos forem negociados rápido e o projeto dela estiver estruturado, acaba a razão para sustentar essa farsa.
Apertei os dedos pequenos.
— E quando acabar, acabou.
Sky olhou para nossas mãos.
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