POV: SKY BITTENCOURT
Acordei sentindo cada músculo do meu corpo reclamar em um protesto delicioso.
A pele das minhas costas e das minhas coxas ainda estava sensível ao toque dos lençóis de fios egípcios da cama principal do Rocco, para onde ele tinha me carregado nos braços depois que o estrago no quarto vermelho terminou. As marcas avermelhadas das cordas e os rastros das palmadas continuavam desenhados na minha pele alva, queimando em uma lembrança viva de tudo o que aquele homem tinha feito comigo na noite anterior.
Virei de lado devagar, soltando um suspiro pesado, e dei de cara com uma bandeja de café da manhã arrumada na mesa de cabeceira: xícara de café preto fumegando, frutas picadas e pães de queijo ainda quentes. Rocco estava sentado na beirada do colchão, de calça de moletom, o peito largo nu e o cabelo preto desgrenhado, me vigiando com aquele meio-sorriso arrogante de quem sabia exatamente o estrago que tinha causado.
— Bom dia, dorminhoca — ele murmurou com a voz rouca de sono, esticando o braço para acariciar a minha bochecha. — Consegue andar ou eu vou ter que te carregar até a cozinha?
— Eu ando muito bem, seu abusado — resmunguei, puxando o edredom até o queixo enquanto sentia meu rosto esquentar. — Você quase me desmontou inteira ontem, mas não vai ter o gosto de me ver rastejando.
Rocco soltou uma risada baixa, encostando a mão na minha cintura por baixo do cobertor. Ele se inclinou mais para perto, o olhar verde descendo com uma calma pesada sobre o meu rosto.
— Quero acordar com você assim todo dia, Sky. Vem morar comigo.
Pisquei duas vezes, surpresa com a franqueza repentina.
— Como é que é?
— Essa cobertura tem espaço de sobra e se não tiver eu compro um lugar melhor — ele continuou, a voz firme e decidida. — A gente monta uma estrutura muito melhor aqui para receber o seu pai na terça-feira, contrata enfermeira particular, fisioterapeuta, tudo o que ele precisar. Você traz a Moon junto. Deixa eu cuidar de vocês de uma vez.
A proposta era tentadora e cheia de carinho, mas a realidade bateu na minha cabeça no mesmo segundo.
— Nem pensar, Blackwood — balancei a cabeça, sustentando o olhar dele. — O meu apartamento dá conta muito bem do meu pai e da minha irmã. E além do mais, você tem uma pendência gigantesca chamada Jussara para resolver antes de sequer cogitar me tirar da minha casa. Eu não me mudo para lugar nenhum enquanto você tiver rabo preso.
Rocco fechou a cara, abrindo a boca para rebater, mas o celular dele começou a tocar em cima do criado-mudo.
Ele esticou o braço longo, olhou a tela e deslizou o dedo para atender.
— Fala, Christian. Aconteceu alguma coisa?
A voz do primo dele soou abafada no aparelho antes que outra voz, bem conhecida minha, tomasse a linha:
— Oi, Rocco. É a Moon. A Sky tá aí com você?
Rocco puxou o cobertor de cima de mim com um puxão rápido, abriu a palma pesada e acertou um tapa seco na minha bunda desprotegida.
O estalo alto ecoou pelo quarto e eu soltei um grito abafado, levando a mão na carne ardida enquanto ele estendia o aparelho para a minha cara com uma expressão cínica.
Peguei o celular quase sem fôlego, me ajeitando na cama e fulminando o desgraçado com o olhar:
— Moon! Oi, mana! Como tão as coisas aí em Angra? Aquele homem tá te tratando direito ou eu preciso pegar um voo para dar na cara dele?
Rocco balançou a cabeça, achando graça, e levou a xícara de café aos lábios enquanto me encarava.
— Tá tudo maravilhoso por aqui, Sky — a voz da Moon veio suave, cheia de paz. — Mas me diz: você falou com o hospital em Porto Alegre? Como tá o papai?
Apoiei as costas nos travesseiros macios, sentindo uma onda boa de tranquilidade relaxar meus ombros.
— Mana, o adiamento da audiência tirou uma tonelada das minhas costas. E o papai tá ótimo! Falei com a equipe médica ontem. Os exames dele estabilizaram, o quadro tá perfeito e o médico já avisou que ele vai receber alta na terça-feira!
— Terça-feira?! Meu Deus, que notícia maravilhosa!
— Pois é! Na terça de manhã a gente vai juntas buscar ele no hospital. Agora que o concurso tá na fase final, a gente se organiza direitinho para revezar os cuidados. Mas ó, eu tô aqui no apartamento do Rocco esse fim de semana porque o bonito veio cobrar uns favores que eu fiquei devendo por causa de um contrato aí... E você sabe como funciona, né, Moon? Envolve cordas, chicote, uns t***s na bunda e tudo aquilo que a gente gosta.
Rocco quase engasgou com o gole de café, arregalando os olhos verdes em um misto de choque e orgulho da minha falta de vergonha.
Do outro lado da linha, a resposta da minha irmã veio apressada e cheia de constrangimento:
— Sky! Pelo amor de Deus, olha a boca! O Christian tá aqui do lado ouvindo!
— E daí? — debochei, ajeitando o cabelo desgrenhado sobre o ombro. — Ele conhece o primo que tem e sabe muito bem como a gente se diverte. Mas e você, Moon? Como foi a noite? O Christian se comportou?
Houve uma pausa de alguns segundos. Ouvi o som característico de passos sobre um piso de madeira e o barulho distante de ondas quebrando, como se ela tivesse tirado a chamada do viva-voz e saído para a varanda.
Quando a Moon falou de novo, a voz dela era um sopro abafado, colada no microfone:
— Sky... deixa eu te contar uma coisa antes que ele escute. Eu perdi a virgindade com ele.
O ar sumiu do meu pulmão. Me sentei na cama em um sobressalto, esquecendo a dor muscular nas pernas:
— MENTIRA! MANA! PARABÉNS! Eu não acredito! Que maravilhoso! Você tá bem? Ele cuidou de você direito?
Rocco travou a xícara no ar, me encarando com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de canto que dizia claramente que ele já imaginava.
— Foi incrível, Sky — a Moon sussurrou, a voz transbordando uma timidez doce. — Ele cuidou de cada detalhe, foi perfeito. Quando eu voltar para Porto Alegre a gente senta e eu te conto tudo com calma, senão o Christian vai ficar insuportável de tão convencido.
— Ai, que felicidade! Aproveita muito esse homem! E ó, o Rocco tá aqui insistindo para a gente se mudar para um lugar maior, mas eu já bati o pé e disse que a gente vai continuar no nosso apartamento. Ele que vá resolver a vida dele com aquela doida da Jussara primeiro antes de querer mandar onde eu moro.
Rocco estreitou os olhos na minha direção ao ouvir o nome da ex, mas manteve o silêncio.
— Tá certíssima, Sky — a Moon concordou, rindo baixo do outro lado. — Não cede não. A gente se vê na terça para buscar o papai. Se cuida!
— Beijo, maninha! Aproveita a ilha!
Encerrei a chamada e joguei o celular em cima do colchão.
Rocco colocou a xícara na mesinha com um toque controlado e apoiou os dois braços na cama, me cercando contra a cabeceira. O olhar verde dele perdeu o tom de deboche e ficou sério.

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