POV: SKY
Do outro lado da sala, ele limpou a garganta.
— A minha família e a família da Jussara querem que a gente se case.
Levantei a cabeça do chão no mesmo segundo, fungando alto.
— Tá vendo?! Eu falei que tinha experiência!
Rocco franziu a testa.
— Como assim experiência, Sky?
— A minha família era amiga da família do Victor e queria que a gente se casasse! — apontei para ele, como se estivesse apresentando uma tese importantíssima em um tribunal. — E eu leio livros de época, Rocco! Eu sei como essas coisas funcionam! Se uma família é amiga da família da outra, alguém inevitavelmente aparece com um casamento, três cavalos e uma propriedade no interior!
— Não tem cavalo nenhum.
— Ainda!
Ele piscou.
— Sky...
— Meu Deus do céu, em que mundo eu não sou corna?! — enfiei as mãos nos cabelos. — Eu nem sei se sou sua namorada, noiva ou o quê! Mas eu continuo corna.
— É um jogo político — ele interrompeu, mantendo a voz calma. — É só para os negócios. A Jussara me pediu ajuda para fingir um noivado falso, só até a gente conseguir fundar a empresa dela. Depois disso, a gente termina e acabou. Ninguém vai prosseguir com nada.
Levantei do chão e comecei a marchar de um lado para o outro na sala.
O Rocco só acompanhava meus passos com a cabeça, como quem observava um animal selvagem tentando descobrir por qual lado da jaula fugir.
— E aí? Você tem que se casar?
— Eu não quero me casar com ela — respondeu direto. — E não vou me casar. Se você não quiser que eu faça nada disso, eu não faço.
Parei no meio da sala e apontei o dedo para ele.
— E o que isso tem a ver com o seu avô?
— O meu avô quer vender algumas empresas e postos para dividir a herança — explicou. — E, se eu estiver envolvido com alguém da alta sociedade...
Ele fez uma pausa.
— Não estou dizendo que você não é suficiente, Sky...
— Tudo bem, eu sei que sou pobre! Continua!
— ...as ações sobem e a empresa vale mais na negociação.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
Sentindo meu peito se apertar.
— Então tudo isso é por dinheiro?
— Em parte.
— Meu Deus, que droga!
Me agachei no chão de novo e comecei a chorar copiosamente de novo, enfiando o rosto entre os joelhos.
Rocco deu um passo na minha direção, preocupado.
— Não! — gritei, estendendo uma mão para a frente. — Não chega perto!
Ele parou.
— Você quer quebrar alguma coisa?
— Eu queria quebrar a sua cara e quebrar a cara dela! — esbravejei de cabeça baixa. — Tô pensando ainda!
Fiquei ali, encolhida no chão, por longos segundos.
O silêncio tomou conta da sala, mas eu conseguia sentir os olhos dele cravados em mim.
— Para de me olhar! — mandei.
— Tá bom, desculpa.
Ele respondeu tão rápido que até pareceu treinado.
Girou o corpo e ficou encarando a parede a direita.
Fiquei olhando para as costas dele enquanto meu cérebro tentava juntar as peças daquela desgraça.
— Então deixa eu ver se entendi — comecei, levantando devagar. — Você tem que se casar. Se você não se casar e contar para o seu avô que não vai rolar, o seu avô pode infartar e morrer.
Ele deu meia-volta.
— Exatamente. Você é boa em adivinhação.
— Pois é, eu sou ótima nisso! — passei a mão no rosto molhado de lágrimas. — E tô odiando cada segundo!
Respirei fundo.
— E o que mais? O que você teve que fazer nesse acordo nojento?
Rocco engoliu em seco.
— Ela... encostou a boca na minha por cinco segundos.
O mundo parou.
Meu cérebro desligou.
Minha alma saiu do corpo, deu uma volta pela sala e voltou só para conferir se eu tinha entendido direito.
Peguei o copo de uísque que ainda estava na minha mão e joguei com toda a força na direção dele.
O copo voou, errou a cabeça dele por poucos centímetros e se estilhaçou contra a parede.
O barulho do vidro quebrando ecoou pela sala.
— Seu desgraçado! — gritei a plenos pulmões.
Parei.
— Quer dizer... aquela desgraçada! Ela!
Rocco deu um pulo para trás, assustado com o estilhaço, e me encarou de olhos arregalados.
Senti meu peito subir e descer.
Meu Deus.
Eu estava parecendo uma maluca desequilibrada.
Não.
Eu estava parecendo uma maluca desequilibrada sem plano de saúde.... E corna....
Os pensamentos começaram a guerrear dentro da minha cabeça, um caos absoluto.
Ele deu um passo cuidadoso por cima dos cacos.
— Se você quiser, Sky, eu termino tudo com ela agora mesmo.
— E aí?! — soltei um grito fino, desesperada. — Aí você conta para o seu avô, o velhinho tem um treco e morre, e a culpa da morte dele é minha!
— Quer que eu fique parado?
— Quero.
— Aqui?
— Não sei! — explodi, levando as duas mãos à cabeça. — Meu Deus, Rocco, eu não sei mais de porra nenhuma!
Ele parou.
Eu também.
Fiquei olhando para o nada.
O nada, naquele momento, parecia uma excelente companhia.
Não fazia perguntas.
Não tinha família complicada.
Não tinha avô cardíaco.
Não tinha noiva de mentira.
Não tinha empresa de tecnologia.
E, principalmente, não tinha Jussara.
Minha cabeça, infelizmente, tinha tudo isso.
Tudo.
Ao mesmo tempo.
Era como se alguém tivesse colocado uma panela de pressão dentro do meu crânio, fechado a tampa e ligado o fogo no máximo.
Eu conseguia ouvir o psssshhhhh imaginário da válvula.
Avô doente.
Casamento por interesse.
Jussara.
Cinco segundos de beijo.
Empresa.
Ações.
Herança.
Ravi.
Chris.
Eu.
Rocco.
Meu Deus.
Rocco.
Porque, no meio de toda aquela desgraça, meu cérebro continuava fazendo questão de lembrar que eu amava aquele homem.
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COITADA DA BIXINHA ESTÁ SURTANDO!!

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