"Adelaide"
Minhas mãos ainda tremiam quando eu fechei a porta do meu quarto. O que estava acontecendo nessa casa? Como o Sr. Albelini podia estar tão cego? Caindo feito um patinho na conversa fiada daquela aproveitadora. E me tratando como se eu tivesse entrado nessa família no mês passado. Um absurdo!
Vinte anos. Vinte anos servindo a linhagem Albelini com uma postura impecável, mantendo cada segredo trancado a sete chaves e cada casa por onde passei funcionando com a precisão de um relógio suíço. E agora, eu era obrigada a servir uma... uma aventureira. Uma mulher que entrou nesta casa com uma mala barata e uma carinha de santa, mas que escondia as garras de uma sedutora de quinta categoria.
"Ela é a senhora desta casa tanto quanto eu."
As palavras dele ainda ecoavam como um sacrilégio. Meu Deus, o pai dele devia estar se revirando no túmulo! Ele estava cego. Aquela moça o tinha enfeitiçado de tal forma que ele foi capaz de destruir uma família tradicional como os Albuquerque por causa de uma insolente!
Eu não conseguia entender. Só podia explicar isso com a genética, no fim das contas ele deve ter herdado aquele coração mole da Heloísa, aquela idiota que achava que todo mundo era digno. Não, como um homem como ele, metódico, orgulhoso, dominante, se deixava cair na conversinha mole de uma... uma mulherzinha que tinha a palavra "vulgar" escrita na testa?
- Ela não pertence a este lugar. - Eu sibilei para o meu reflexo no espelho, as lágrimas de fúria queimando os meus olhos.
Ela nunca deveria ter entrado nesta casa. Eu nunca entendi como ela conseguiu esse emprego. Eu fui clara com a agência de empregos quando o Sr. Albelini me passou a lista de exigências e eu fiz questão de incluir a minha exigência: uma mulher mais velha, uma senhora, uma pessoa rigorosa que colocasse aquela menina chata no lugar dela.
O pior é que eu sabia o que aconteceria a seguir. O Sr. Albelini elevaria aquela mosca morta ao topo, e quando a queda viesse, porque sempre vem, ela levaria o nome Albelini para a lama junto com ela. Eu não podia permitir. Não era apenas pelo emprego, mas eu era a guardiã dessa casa, dessa família, era meu dever impedir que o Sr. Albelini atirasse a si mesmo e a toda a família no precipício.
Além do mais, a única senhora da Mansão Albelini era eu, sempre foi assim e nãpo mudaria. Essa casa era o meu reino, desde que o jovem Érick se casou com aquela sonsa que não durou muito, nem a que foi a esposa se metia comigo e eu não aceitaria uma usurpadora, uma concubina tirada da rua, dividisse o trono com o rei que eu vi crescer e jurei ser leal.
Eu peguei o meu celular pessoal e disquei um número que eu sabia que estaria esperando por um sinal. Ela estaria pronta para me ajudar. Essa sim era uma dama! Uma pena que já era casada, porque ela seria uma Albelini divina! Mas quem sabe agora que o marido estava na banca rota... ah, não, melhor não, aquele filho dela é ainda mais insuportável que a chatinha da Alice.
- Alô? - A voz do outro lado estava carregada, como se estivesse enfrentando um inferno.
- Senhora Albuquerque... sou eu. Adelaide. Da mansão Albelini.

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