"Lorena"
No fim das contas, o excesso de confiança era o culpado pela derrocada de todas as pessoas como o Conselheiro Mendes, homens que atingiam algum nível de poder e se sentiam acima do bem e do mal, se esqueciam que olhando de frente as suas paredes pareciam robustas, mas o seu telhado era de cristal e poderia se partir a qualquer momento. Eles se sentiam intocáveis e paravam de se preocupar em cobrir os rastros do seu pecado.
O Conselheiro Mendes caiu em sua própria armadilha, já não se preocupava mais em ser discreto, mantinha o mesmo lugar há anos, onde ia todos as tardes. Eu não estava me divertindo com aquilo, a vida alheia não me importava, mas eu também não queria o meu passado exposto e, mais do que tudo, eu não queria que aquele Conselho continuasse ameaçando o Érick. Eu precisava barganhar com o segredo dele e se eu não pegasse pesado, ele poderia reagir.
Eu segurava a câmera digital compacta de alta resolução dentro da minha bolsa, sentada no banco de trás do carro eu repassava mentalmente todas as informações do dossiê. Ao meu lado, a Marcelina retocava o batom vermelho no espelhinho de mão, com a calma de quem está indo a um shopping, e não cometer um crime de chantagem e extorsão qualificada.
- Tem certeza de que o garoto destrancou a porta, Alberto? - A Marcelina perguntou, guardando o batom e o espelho.
O Alberto olhou pelo retrovisor, com aquele olhar de quem já viu coisas demais e achava a nossa missãozinha um passeio no parque. Ele tirou uma barra de chocolate do bolso e me estendeu pelo vão dos bancos.
- Chocolate acalma, Srta. Lorena. Mas é o nosso segredo. - Ele sorriu pelo retrovisor e eu peguei o chocolate agradecida. - Marcelina, o rapaz recebeu o bônus dele, ele finge ser o tipo avoado e de pouca inteligência, mas é uma pequena raposa brincando com um predador velho. Vai dar tudo certo, apenas não deixem que o Mendes perceba que tivemos uma ajudinha. - O Alberto respondeu com a voz tranquila de sempre. - Chegamos! O Conselheiro entrou há exatamente dez minutos.
- Obrigada, Sr. Alberto. Por isso e por tudo. - Eu sorri, guardando o chocolate na bolsa. Olhei para a Marcelina. - Pronta, ajudante da fada?
- Eu nasci pronta, Lô. Vamos depenar esse frango. - A Marcelina abriu a porta e desceu, como diria o Julian, como uma tempestade.
Nós entramosno edifício pelos fundos e usamos todos os acessos dos funcionários para evitar as câmeras principais do saguão, graças a um cartão de serviço que o Julian tinha conseguido com os seus contatos. Quando as portas do elevador de serviço se abriram no quarto andar, o corredor cheirava a carpete novo e dinheiro.
Paramos diante do 402. Marcelina ajeitou a saia curtíssima do seu uniforme customizado e me deu uma piscadela, me fazendo rir. Ela segurava uma prancheta e uma garrafa de champanhe. De onde aquilo havia saído, eu achei melhor nem perguntar. Ela não bateu. Simplesmente girou a maçaneta. A porta abriu com um clique suave.
Entramos na sala decorada em tons minimalistas de cinza e branco. O som de vozes abafadas e risadas vinha do quarto ao fundo, acompanhado por uma música clássica irritantemente alta. A Marcelina fez um sinal com os dedos: três, dois, um.
- O champanhe chegou, rapazes! - A Marcelina anunciou alegremente ao empurrar a porta do quarto que estava entreaberta e eu comecei a tirar fotos, muitas fotos.
O Conselheiro Mendes, que estava sentado na beirada da cama, com um jovem em seu colo, arregalou os olhos e se ergueu depressa, jogando o jovem no chão.
- Mas o que é isso? - O Conselheiro se virou em nossa direção, ele estava usando apenas uma calcinha fio dental de seda azul-marinho. Ele tinha 65 anos, uma barriga proeminente e a arrogância de quem achava que mandava no Grupo Albelini. - Que porra é essa?! - Ele esbravejou, o rosto passando do branco para o vermelho em dois segundos. - Quem são vocês? Como entraram aqui? Segurança!
- Calma, Conselheiro. Nós só viemos... confraternizar. - A Marcelina disse, exibindo a garrafa de champanhe. - Viemos entregar uma encomenda. E fazer uma auditoria visual.
- Vocês enlouqueceram? Eu sou um membro do Conselho so Grupo Albelini! Um homem respeitável! Eu posso destruir a vida de vocês com um telefonema! Saiam do meu apartamento agora ou eu chamo a polícia! - Ele avançou na nossa direção, os dedos trêmulos apontando para a porta e a Marcelina deu uma risadinha.


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