"Lorena"
Eu joguei a caneta sobre a mesa, observando mais uma folha de caderno rabiscada com nomes de agências e escritórios de auditoria para os quais eu havia enviado o meu currículo. Nenhuma resposta. Nenhum retorno de e-mail. Nenhuma entrevista marcada. Meus calos nos pés doíam de tanto andar pela cidade nos últimos dias, mas a dor física não era nada perto da humilhação de levar tantas portas na cara. Mais do que isso só doía o vazio que o Érick deixou e a saudade que eu sentia da minha menina. Como será que a Alice estava?
Eu esfreguei as mãos no rosto e me recostei na cadeira, sem ter ideia do que mais eu poderia fazer.
- Eu também não consegui nada hoje, Lô. - A Marcelina comentou, entrando na sala com os ombros caídos e jogando a bolsa no sofá. O tom atrevido dela estava apagado, desgastado pela frustração. - Até para vaga de atendente em uma loja de shopping me disseram que o meu currículo foi "arquivado" para uma próxima oportunidade. Acredita que nem o Sr. João da padaria quis me contratar como atendente? Ele disse que eu não me adaptaria ao trabalho. - Ela se sentou na cadeira ao meu lado e deu uma bela olhada na minha lista.
- Acredito, Lina. Porque até os comerciantes do bairro dispensaram meus serviços freelancer. Todos eles, magicamente, contrataram um bom contador. - Eu respirei fundo, tentando administrar a frustração que eu sentia.
- Tem algo muito errado acontecendo. Nós temos experiência... você tem qualificação, um diploma. Não faz sentido.
- Tem o dedo do Albelini nisso, Lina. - Eu respondi, a minha voz saindo linear, fria, sentindo a pontada aguda que aquela constatação causava no meu peito. - O Érick não se contentou em me expulsar e me chamar de prostituta golpista. Ele está usando o poder dele para garantir que eu morra de fome nesta cidade. Ele me colocou em uma lista de indesejáveis corporativa, eu tenho certeza. E deve ter colocado o seu também.
Antes que a Marcelina pudesse responder, o som da porta da frente se abrindo chamou a nossa atenção. A Dalva entrou na sala, mas ela não estava sozinha. O Julian Beaumont passou pelo portal logo atrás dela, vestindo um terno cinza sob medida impecável que parecia uma ofensa na simplicidade daquela casa.
A Marcelina travou no mesmo milésimo de segundo em que seus olhos encontraram os dele, os olhos escuros dela faiscando de puro ódio. Ela levantou, cruzando os braços e encarando o Julian como se seu olhar pudesse matá-lo.
- O que você está fazendo aqui de novo, engomadinho de merda? - A Marcelina cuspiu as palavras. - Eu já não joguei o meu contrato na sua cara ontem? Some da nossa vida! Vocês já conseguiram acabar com a gente!
- Eu gosto mais quando você me chama de Baby. - O Julian deu um passo em direção a ela, que deu um passo para trás. - Eu vim trazer seus documentos, Baby, fiz o que você me pediu e dei baixa no seu contrato. Eu também trouxe o seu dinheiro. E eu esbarrei com a Dalva aqui na entrada e ela me convidou para um café. - O Julian respondeu, mantendo a voz grave, desprovida da habitual arrogância cômica. Ele ignorou a fúria sa Marcelina, dando mais um passo para dentro e fixando os olhos em mim. - E eu também precisava saber como a Lorena está. O Érick se trancou na mansão e eu não vou deixar vocês duas desamparadas no meio disso tudo.
- Nós não precisamos da sua caridade e nem da sua preocupação, engomadinho de merda! - A Marcelina rebateu, aproximando-se dele, a respiração acelerada de raiva.
O Julian a encarou, os olhos dele descendo pelas curvas dela com aquela possessividade que deixava claro que ele ainda cobraria o acordo que eles tinham feito quando tudo ruiu.
- Crianças, por favor, parem de brigar. - A Dalva interveio, ajeitando a bolsa no braço e tentando suavizar o clima, embora tenha trocado um olhar rápido, enigmático e cúmplice com o Julian que eu não consegui decifrar.
- Dalvinha você não pode ficar convidando o inimigo para a sua casa. - A Marcelina reclamou.
- Eu não sou o inimigo, Baby. Você sabe disso... ou não teria me procurado naquela noite. - O Julian suspirou.

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