"Érick"
O whisky matinal já não fazia efeito nenhum no meu corpo, então eu virei a dose de vodka que queimou a minha garganta, mas o gelo no meu peito continuava intacto. Talvez eu devesse mudar para algo mais forte, porém, mais forte que isso seria o maldito absinto e só de pensar nele eu sentia o gosto da Scarlat na minha boca se misturando com op gosto da Lorena e me lembrando de que eram a mesma maldita mulher que me arrastou para um inferno indizível!
Eu vestia o meu terno escuro e alinhado, por fora eu era a imagem sólida do homem de negócios que o mundo conhecia, mas por dentro eu era terra arrasada. Eu estava encarando três telas no escritório da minha casa quando os alertas de mercado começaram a piscar nelas como se estivessem anunciando o fim do mundo.
As manchetes dos principais jornais nacionais e os canais internacionais de finanças explodiram na mesma hora. A imagem de solidez do Simão estava derretendo. Os desvios patrimoniais da holding, a triangulação financeira em paraísos fiscais, as contas secretas e não declaradas e, o golpe de misericórdia, o caso sórdido com a Verônica Albuquerque e o filho bastardo haviam vazado para a mídia. Era um massacre público. O mercado de capitais estava triturando o sobrenome deles antes das nove da manhã.
O meu coração torceu e o meu primeiro pensamento foi um só: Lorena Valente. Tinha que ser ela. Ela conhecia cada um daqueles detalhes. Ela tinha se vingado. Tinha pegado os podres do Simão e jogado para a mídia depois de fazer um acordo de sigilo com ele. O meu primeiro reflexo foi uma raiva primitiva, porque eu respeitava os meus acordos. Mas o que ela queria provar com aquilo?
Porém, o meu próprio cérebro me paralisou no segundo seguinte, como se me atirasse a realidade na cara. Não fazia sentido. A Lorena estava fora da minha vida. Sem dinheiro. Sem o suporte que eu poderia dar. Os relatórios originais, as fotos, o DNA, cada prova... tudo aquilo estava trancado no meu cofre. Ela não tinha os arquivos. Não tinha os contatos de alta influência para divulgar aquele escândalo. Ela não tinha meios.
Mas tinha uma pessoa que tinha todos os meios, detestava o Simão e com certeza estava se sentindo no direito de se vingar: o Beaumont! O meu maxilar travou com tanta força que meus dentes estalaram. Se não era a Lorena... era ele. Julian Beaumont. Ninguém mais teria motivos ou provas suficientes para atacar o Simão. Ele tinha usado os arquivos e vazado tudo para a mídia por pura retaliação. Mas por que? O Simão tinha cumprido a parte dele no acordo e se retirou em silêncio... então eu me lembrei da ameaça que ele fez a Lorena naquele dia no escritório, que reviraria a vida dela até encontrar algo... no entanto, quem encontrou foi a Adelaide.
- Você me traiu de novo, Beaumont! Agiu pelas minhas costas mais uma vez. - Eu sibilei para o vazio, pegando o celular para ligar para o Andrey e ordenar que ele mandasse o Beaumont parar de agir pelas minhas costas.
- Guarde o telefone, Érick. - A voz mansa, fria e perfeitamente aristocrática da minha mãe cortou o silêncio do escritório. - O Julian não tem nada a ver com essa manhã... animada.
Eu ergui os olhos. Eu estava tão distraído com os meus próprios pensamentos que não a notei na porta. A minha mãe entrou e se sentou elegantemente na minha frente, a postura inabalável.
- Mãe, não entre nisso. O Beaumont cruzou a linha outra vez. Ele não tinha o direito de detonar essa bomba sem a minha autorização. - Eu tentei falar, a minha voz saindo ríspida, mas ela me interrompeu com um gesto simples e cortante de mão.
- Érick, meu filho, o quão estúpido você se torna quando está cego pelo orgulho? - Ela me encarou como se tivesse me perguntado sobre o tempo. - Querido, o Julian jamais agiria pelas suas costas, a não ser para te proteger de si mesmo e mesmo assim relutantemente.

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