"Érick"
Eu encarei a minha mãe e talvez ela ainda não acreditasse na verdade porque ela não viu o que eu vi, todas aquelas provas incontestáveis.
- Talvez eu tenha que dizer que a senhora precisa aceitar a realidade, que a senhora, como eu, acreditou numa mentirosa, numa prostituta de luxo golpista. - Eu falei com a voz baixa, mas num tom frio.
- Ah, Érick, você ainda não aprendeu que eu nunca me engano?! Você ainda vai se arrepender dessas palavras.
- Não vou, mãe, as provas contra aquela mulher são tão sólidas e robustas quanto as provas contra o Simão que a senhora atirou na imprensa. - Eu esfreguei o rosto antes de voltar a encará-la.
- Sólidas e robustas? Por acaso você investigou pessoalmente? Ou alguém de sua confiança investigou? Como o Julian costumava fazer, sólido, robusto, sem furos ou erros. - Minha mãe suspirou pesadamente. - Meu filho, você é tão inteligente, não pensou que pode ter um calhamaço de provas falsas nas mãos?
- Chega, nãe! Eu sei o que vi! - Eu respondi de forma ríspida. - Mas a senhora não veio ao meu escritório falar sobre o Simão, não é?! Nem questionar o meu julgamento sobre as coisas que eu mesmo vi, imagino.
- De fato não, embora eu esperasse que você já soubesse desse escândalo e também que já estivesse voltando a pensar. Mas vejo que não... - Ela falou como se lamentasse. - Eu vim te informar que não vou contratar nenhuma governanta de agência e nenhuma babá oficial para esta casa por enquanto. - Ela contou, recuperando a voz linear e um tom que deixava claro que eu não deveria interferir na sua decisão. - Eu mesma vou ficar por aqui e cuidar de tudo até que as coisas voltem aos eixos. Só preciso de alguém de pulso firme para me auxiliar. E eu já resolvi isso.
- A senhora realmente vai deixar as suas coisas de lado e ficar por aqui? - Eu perguntei sem entender porque ela faria isso.
- É, eu vou. Nada é mais importante para mim que o bem estar da Alice e ela precisa de mim agora. Você também precisa, mas só vai ver isso quando largar a garrafa. - Ela apontou num tom reprovador para a garrafa de vodka sobre a minha mesa.
Duas batidas firmes na porta do escritório nos interromperam. A silhueta alta do Alberto surgiu no batente. O motorista manteve a expressão neutra e profissional de sempre, mas os olhos dele buscaram os da minha mãe por um segundo.
- Sr. Albelini, Dona Heloísa... a nova funcionária que a senhora selecionou para os afazeres domésticos acabou de chegar. Ela está aguardando no hall de entrada. - O Alberto anunciou, ajeitando a postura.
- Ah, ótimo! Ela chegou mais cedo. Vamos, Érick, você precisa conhecer seus funcionários. - A minha mãe intimou.
Eu respirei fundo, ajeitando o paletó do meu terno escuro, tentando recuperar a minha fachada de gelo e autoridade inabalável. Eu precisava de ordem. Precisava de alguém que não me olhasse com pena ou deboche. Precisava manter a autoridade dentro da minha própria casa, mas a minha mãe parecia muito disposta a me tratar como um menino mimado.
- Vamos ver se a sua indicação presta, mãe. A última eu joguei na rua porque estava me traindo, espionando a minha casa e me entregando para quem pagasse mais. - Eu respondi com um cinismo cortante, contornando a mesa e caminhando em direção à saída do escritório.
Eu cruzei o corredor e cheguei ao hall de entrada com passos estrondosos e firmes. Parei a certa distância. Perto das malas simples, uma mulher de meia-idade estava de pé. Ela usava um vestido preto simples e funcional, o cabelo preso de forma discreta e uma postura firme, as mãos cruzadas à frente do corpo e o nariz elevado com uma dignidade que me chamou a atenção. O olhar dela era acolhedor, maternal, mas exalava o pulso firme que eu havia exigido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite