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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 60

"Érick"

Eu me senti dez quilos mais leve no momento em que saí da Infernal naquela sexta-feira. Talvez até mais. O bilhete da Scarlat, amassado no meu bolso, era o fim de uma obsessão que tinha se tornado pesada demais e eu não queria mais carregar. Ela me dispensou como se eu não fosse mais que um incômodo, disse que o meu tempo acabou. Mulherzinha atrevida!

Claro, as coisas não foram como eu queria e, num primeiro momento, eu tinha ficado muito irritado, afinal, o bilhete da Scarlat era um desaforo. Mas era melhor assim, melhor do que ter uma mulher me perseguindo e atrapalhando o que eu estava vivendo com a Lorena. Qualquer outro homem ficaria furioso com o golpe no ego, antes eu teria ficado, mas agora? Eu senti uma gratidão quase religiosa. No fim das contas a capetinha tinha feito o trabalho por mim. Ela cortou o fio que nos unia. Eu estava muito feliz, mas ainda tinha algo no meu coração que eu não sabia explicar.

No sábado à tarde, eu estava no jardim com a Alice quando Julian e o Andrey apareceram. Eu já sabia qual era a razão da visita e mandei a Alice assistir a um daqueles filmes que ela adorava.

- Depois o tio j**a um pouco de futebol com você, Lili! - O Julian gritou para a Alice e eu ergui a sobrancelha. Ele era o único que a chamava assim. - Não se meta entre essa garotinha e eu Albelini. - Ele avisou muito sério e eu acabei rindo.

- Ih, Julian, olha isso. Érick Albelini sorrindo por nada! - O Andrei parecia ter visto algo sobrenatural.

- Vamos entrar. - Eu os chamei.

- Cara, eu não acredito! O que foi aquilo ontem? - O Julian se jogou no sofá e colocou os pés para cima como se estivesse na própria casa. - A Scarlat deu um perdido geral. E você saiu bufando da boate assim, de mãos abanando, sem correr atrás dela. O que você fez com a mulher, Albelini? Ou eu devo perguntar o que ela fez com você?

- Eu não fiz nada, Julian. Eu apenas fui lá para encerrar uma conta que já estava vencida. - Eu respondi e me sentei. - Eu não volto mais à Infernal. A Scarlat é assunto encerrado.

Os dois homens na minha sala trocaram olhares de choque. Para eles, era o fim de uma era. Para mim, era o começo da minha vida real.

- Você está falando sério? - O Julian perguntou, perdendo o tom de deboche. - Vai mesmo trocar as luzes de neon pelo... pelo quê mesmo, Albelini? - Ele começou a abrir um sorriso de quem já estava entendendo.

- Vou trocar a fantasia pela verdade, Julian. - Eu afirmei, a imagem da Lorena sorrindo no chalé brilhou na minha mente. Eu já estava louco de saudade dela.

- Quer dizer que a capetinha está livre? - O Andrey perguntou animado.

- O que aconteceu com o código de ética masculino de não se meter com as mulheres dos amigos? - Eu perguntei e ele riu.

- Foi você quem disse que foi uma fantasia. - O Andrey deu de ombros.

- Explica essa história da babá direito, Érick. O que aconteceu? - O Julian quis saber e enquanto eu contava para eles o que estava acontecendo entre a Lorena e eu, o sorriso não saía do meu rosto.

A noite de sábado foi longa. Eu sentia falta do cheiro de coco. Sentia falta da voz dela. No domingo de manhã, a casa parecia um mausoléu sem a Lorena. A Alice acordou de mau humor, reclamando que a "Lolô demorava demais para voltar" da folga. Eu ri, mas a verdade é que eu também estava achando aquela folga longa demais.

- Vamos ligar para ela, papai? - A Alice pediu já quase na hora do almoço, enquanto íamos para a cozinha preparar algo para comer. Minha filha me olhou com os olhos pidões e eu não pude e nem quis resistir.

Eu peguei o celular, decidido. Eu também não aguentava mais uma tarde inteira de espera. Mas, no momento em que o sinal de chamada começou, eu ouvi o som familiar de uma chave girando na porta da cozinha. A Alice saiu correndo, gritando o nome dela, e eu fui logo atrás, sentindo o coração martelar como o de um adolescente.

Quando a vi entrar, meu mundo se completou. Mas, ao mesmo tempo, algo me incomodou. A Lorena parecia exausta, mesmo a maquiagem que ela usava não disfarçava totalmente as suas olheiras. Ela não parecia estar voltando de uma folga de dois dias. Ela parecia ter carregado o mundo nas costas durante o fim de semana.

- Você voltou cedo. - Eu disse, me aproximando assim que ela soltou a Alice de um abraço que parecia matar uma saudade de uma ausência longa demais. - Você parece ter não estar bem, Lorena. Aconteceu algo?

- Só... não consegui dormir bem, senhor. Senti falta da minha menina e... de estar aqui. - Ela respondeu, a voz saindo quase como um sussurro.

- Então não vai mais, Lolô, fica aqui com a gente pra sempre! - A Alice pediu ajoelhada numa das banquetas da ilha da cozinha.

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