"Lorena"
Quando a noite de domingo chegou, havia uma suavidade naquela casa que eu não sentia antes. A Alice, exausta do piquenique e de correr pelo jardim, tentou bravamente manter os olhos abertos durante o jantar, mas o Érick precisou carregá-la até o quarto.
- Lolô, você ainda tem medo do quarto novo? - Ela perguntou no momento em que eu abri a porta do quarto dela. - Porque se você tiver, eu durmo lá com você de novo.
Eu olhei para o Érick, que me observava sobre o ombro dela com um sorriso enviesado. Ele estava claramente torcendo para que a minha resposta desencorajasse a Alice, mas eu não resistia a minha menina.
- Sabe o que é, meu amor? Acho que o medo foi embora hoje, junto com o pôr do sol. - Eu respondi, acariciando o cabelo dela. - Mas, se você quiser, podemos dormir juntas só mais esta noite, só para garantir que o medo não vai voltar e que o quarto agora é meu.
A Alice comemorou com um sorriso e desceu do colo do pai.
- Vou pegar o meu pijama, Lolô! - Ela falou coçando os olhinhos de sono e entrou depressa no quarto. O Érick nos observava em silêncio, mas o brilho naqueles olhos azuis me dizia que o "Sr. Albelini" não pretendia aceitar um "não" como resposta para o resto da noite.
- Você sabe que ela vai dormir como uma pedra, não sabe?! - Ele se inclinou e sussurrou para mim. - E o meu quarto fica logo ali no fim do corredor.
- Não seja bobo, papai! A Lolô sabe onde fica o seu quarto, pra quê repetir? - A Alice apareceu na porta nos pegando naquele flerte nada inocente.
- Ah... é... só por garantia, pequena. Vai que o ar condicionado dá problema de novo, não é? - O Érick respondeu parecendo constrangido de ser pego pela filha e eu escondi o sorriso com a mão.
- Agradeço, Érick, mas o ar condicionado agora funciona muito bem. - Eu respondi e virei para a Alice. - Vamos, querida?
- Boa noite, papai. - Ela jogou um beijo para o pai e segurou a minha mão.
- Boa noite, pequena! - Ele se abaixou e deu um beijo na testa dela. Eu abri a porta do meu quarto para a Alice entrar e assim que ela passou eu o ouvi dizer: - Boa noite, Lolô!
- Eu olhei para trás e ele estava com um sorriso lindo para mim, que me fez ter vontade de voltar e dar um beijo nele. Mas eu me conformei em apenas jogar um beijo disfarçadamente.
Diferente da Alice, que mal conseguiu chegar na cama de olhos abertos, eu não conseguia dormir. O peso da verdade não dita estava me correndo e eu precisava encontrar um jeito de falar com o Érick. Por fim, já passava das duas da manhã quando eu não consegui mais ficar na cama, eu precisava de um leite morno ou um chá.
Eu desci as escadas na ponta dos pés. A casa estava mergulhada em um silêncio absoluto e como era domingo, os funcionários só retornariam nas primeiras horas da manhã de segunda, inclusive a Adelaide, o que me fez respirar aliviada por saber que não seria surpreendida por aquela ave agourenta. Entrei na cozinha na penumbra, havia só uma luz indireta vinda do jardim que brilhava nas vidraças. Mas ao ver uma silhueta alta junto à ilha de mármore eu dei um pulo e quase gritei de susto.
- Beber água no escuro é perigoso, Lolô. - A voz rouca do Érick vibrou no ar. Ele estava apenas de calça de moletom, o torso nu, esculpido e poderoso como um deus refletindo a luz fraca que entrava pela janela.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite