"Lorena"
Eu ainda estava sentada no sofá da Dalva, olhando para os rostos perplexos dela e da Marcelina depois de me ouvirem contar sobre a minha semana na casa do Albelini.
- Vocês não vão dizer nada? - Eu perguntei já custando a suportar aquele silêncio. Eu já tinha culpa demais sobre mim e ainda precisava lidar com a Scarlat frente a frente com o Érick.
- E você disse que ela não tinha como se enrolar em mais problema, Dalvinha. - A Marcelina falou para a Dalva ainda chocada, sem tirar os olhos de mim.
- É, eu sabia disso, mas eu acho que ela não sabia, foi lá e fez. Acabou arranjando mais um dos grandes. - A Dalva estava com a mão no rosto como se estivesse abobalhada.
- Como eu saio disso, Dalvinha? - Eu perguntei para aquela mulher que tinha se tornado mais que uma amiga, era quase uma mãe para mim.
- Só tem um jeito, Lorena, contando a verdade antes que ele descubra. Você já foi enganada, sabe como dói. - A Dalva tinha toda razão, mas eu não tinha nenhuma coragem.
- Quer saber, eu não contaria. Faz a Scarlat terminar com ele, Lô. E depois foge dele e dos amigos sempre que aparecerem na Infernal. - A Marcelina deu de ombros com seu jeito simplista.
- Eu acho que é melhor deixar a Infernal, Lina. - Eu esfreguei os olhos, cansada de tanto pensar e não chegar a lugar nenhum.
- Se o Barão te deixar sair. Você faz dinheiro naquele lugar, Lô. O Barão não vai querer te perder. - A Marcelina me alertou.
- Isso eu posso resolver, treinar uma nova Scarlat... sei lá. Você é muito melhor que eu. Mas eu preciso daquele dinheiro também. - Eu estava em uma situação delicada demais.
- Lorena, você não faz nada errado na boate, só serve as mesas. Conta a verdade para esse moço e explica que precisa do dinheiro. - A Dalva sugeriu.
- O problema, Dalvinha, é que ele acha que a Scarlat faz as coisas erradas e a prova disso está nesse envelope. - Eu apontei para o envelope de dinheiro ao meu lado.
- Olha, Lô, minha opinião pra você é a seguinte, vai lá, incorpora a Scarlat, termina com o gostosão, devolve esse dinheiro que queima na sua mão como se fosse o fogo do inferno, e amanhã decide se vai sair da boate ou não. E depois decide se conta a verdade para o gostosão ou não. Mas nós precisamos ir para não nos atrasar. - A Marcelina falou com a segurança de quem vê o problema de fora.
Acontece que a Marcelina tinha razão, a primeira coisa a ser feita era a Scarlat terminar com o Érick e devolver o dinheiro. Aquilo era realmente o fogo do inferno. Eu a encarei por um momento, peguei o envelope e a minha bolsa e me despedi da Dalva.
No camarim da boate, eu encarava o reflexo no espelho e sentia uma náusea profunda. A mulher que me devolvia o olhar, de peruca vermelha vibrante, olhos marcados pelo preto e lábios pintados de forma provocante, parecia uma estranha. Uma impostora que estava roubando a minha chance de ser feliz.
Esta manhã eu estava nos braços de Érick no escritório da mansão, sentindo o calor do seu beijo. Agora, eu estava vestindo o couro e a renda da Scarlat, me preparando para perder para mim mesma. Como eu tinha conseguido complicar tanto a minha vida?

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite