"Heloísa"
Eu não posso dizer que a ligação do Érick me surpreendeu, eu já esperava por ela, afinal, os olhos e ouvidos que eu tinha dentro do Grupo Albelini já tinham me informado os passos do Conselho e como o meu filho saiu da empresa determinado. Então, quando ele ligou pedindo para que eu o ajudasse a preparar a Lorena para enfrentar o Conselho eu dei uma desculpa e pedi que o motorista dele me buscasse, assim eu poderia saber o que estava acontecendo na casa.
O Alberto dirigia com a discrição que lhe era característica, não deixando que ninguém suspeitasse que ele era mais do que um motorista. E com os anos, ele também havia se tornado um bom amigo e eu o conhecia o suficiente para notar o peso em seus ombros.
- As coisas estão fora de controle, Alberto? - Eu iniciei a conversa tão logo o carro saiu dos portões da minha casa.
- Estão tensas, senhora. O Sr. Érick, chegou à casa mais cedo com os dois amigos. Todos pareciam prestes a entrar em um campo de batalha. Seja o que for, é muito sério. Eles se trancaram no escritório e a Srta. Lorena exigiu que todos ficassem longe de lá, mesmo a Adelaide.
- É, as coisas estão tensas. - Eu concordei já pensando em como abordaria o Julian. - E falando na Lorena, como foi na escola hoje, Alberto? - Eu perguntei, observando a paisagem passar.
- Sem incidentes, Dona Heloísa. O Sr. Érick deu ordens para que ela não saísse do carro. - Ele respondeu, os olhos encontrando os meus pelo retrovisor. - Mas a Srta. Lorena está começando a sentir o que terá de enfrentar. Ela é perspicaz, percebeu que precisa ser discreta e ter cuidado mesmo dentro da mansão.
Eu aquiesci. Eu sabia que o Érick tinha declarado guerra ao Conselho, mas o que me preocupava eram as trincheiras dentro de casa, nós teríamos que estar atentos para que nada escapasse de lá.
- Ela falou algo sobre a Adelaide? - Eu fui direta. Com o Alberto, eu não precisava de meias palavras.
- Ela não precisou falar muito, senhora. O medo dela é silencioso, mas é real. Ela sente que está sendo vigiada em cada passo. E, se me permite a ousadia, a Adelaide não está mais agindo como uma funcionária leal. Ela está agindo como alguém que acredita que o Sr. Érick perdeu o juízo e que cabe a ela "salvar" a linhagem.
Eu respirei fundo. O Alberto havia dado voz aos pensamentos que já rondavam a minha mente há dias. A Adelaide foi útil por décadas, mas a lealdade dela era às regras mortas, não à felicidade viva do meu filho. E quando ela decidia erguer o baluarte das tradições, ela se virava contra qualquer um.
- A Adelaide se esquece de que quem define a direção nesta família sou eu, não o manual de etiqueta dela. - Eu comentei, minha voz saindo com o aço que poucas pessoas tinham o desprazer de conhecer.
- Essa é uma guerra silenciosa e muito antiga, senhora. Eu vi começar e creio que não verei o fim. Principalmente agora que a história parece estar se repetindo.
- É, a Adelaide parece ter se esquecido do que aconteceu da última vez que ela tentou medir forças comigo. Ela confia muito na memória dos Albelini que já não estão aqui. - Eu reclamei.
- Talvez, com a sua presença, ela recue, senhora. Mas a Srta. Lorena está se saindo muito bem. Ela não deixa o inimigo ver a sua fraqueza.

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