"Lorena"
A D. Heloísa sugeriu que fôssemos para o jardim, mas eu insisti que ficássemos na sala de música, dali eu poderia manter olhares curiosos afastados da porta do Érick. Nós nos sentamos no sofá próximo a janela
- Vamos preparar você, Lorena. Eu sei que não preciso ensiná-la a usar os talheres, mas eu vou ensiná-la a domar as feras. - A D. Heloísa abriu uma pasta sobre o sofá e apontou para a foto de um homem de cabelos brancos e olhar dissimulado. - Este é o Simão. Ele é o decano do Conselho e quem fala por eles. Ele não vai te atacar com grosserias, ele vai te atacar com condescendência. Ele vai te fazer perguntas sobre negócios esperando que você gagueje.
- Eu sou formada em Contabilidade, Dona Heloísa. - Eu endireitei a postura. - Eu gaguejava quando não tinha nada a perder. E eu já perdi tudo uma vez. Eu recomecei. Agora, eu tenho a Alice e o Érick e eu não estou disposta a perdê-los. Esse Conselho não vai me tirar isso.
A D. Heloísa sorriu, parecia satisfeita com a minha atitude. O apoio dela era fundamental, mesmo que eu não compreendesse porque eu tinha a afeição dela assim, tão espontaneamente.
- Ótimo. Quando ele tentar te diminuir, você não se defende. Você o ataca com a eficiência dele. Diga que admira como ele mantém o Conselho coeso e que isso é muito importante para a estabilidade da empresa, mas que você sabe que o Grupo Albelini agora busca... expansão. E que você e o Érick estão alinhados nessa nova visão e com o Conselho.
A Alice, sentada ao meu lado, imitava a minha postura ereta.
- E o sorriso, vovó? O sorriso é importante, lembra que você me ensinou? Sorria como se tivesse um chocolate escondido na mão. A senhora me falou isso na festa do seu último aniversário. - A Alice lembrou a avó.
Nós rimos, mas a lição era séria. Nós passamos as duas horas seguintes ensaiando respostas para perguntas invasivas sobre o meu passado e como eu lidaria com a pressão social. A D. Heloísa me ensinou a nunca dar uma resposta completa, sempre deixar o interlocutor em dúvida sobre o quanto eu realmente sabia.
- Eles querem uma babá que teve sorte, Lorena. Esperam que você deixe o Érick em uma posição delicada, mas eu sei que isso não vai acontecer. O Érick também sabe disso. - A D. Heloísa fechou a pasta. - Dê a eles uma mulher encantadora, que os faz sentir que eles é que têm sorte de estarem na mesma sala que você.
- Isso, Lolô! Mostre a eles que você é uma fada que realiza desejos e eles vão ficar impressionados, igual ao papai. - A Alice completou.
- É isso, Lorena, a Alice tem razão, mostre a eles que você tem magia e pode tornar tudo melhor. Os encante, como encantou o mais rabugento dos Albelini. - A D. Heloísa piscou para mim e eu entendi exatamente o que era preciso.
- Entendi! - Eu peguei a pasta que ela me ofereceu.
- Agora me conte, está um dia lind lá fora. Por que ficar fechada aqui? - A D. Heloísa quis saber.
- Ai, D. Heloísa, me desculpe, eu sei que a senhora confia em todos nesta casa, mas eu não. E não confio porque nem todos estão satisfeitos com as coisas que estão acontecendo. - Eu tentei explicar sem ser muito direta, já que a Alice estava presente.
- Entendo o que você quer dizer, mas não entendo o que isso tem a ver com você não querer ir para o jardim. - A senhora comentou.



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