"Lorena"
Acordar na cama do Érick sem a necessidade de me esgueirar para fora como uma ladra foi uma experiência sensorial que eu não estava preparada para processar. O sol de sábado entrava pelas frestas das cortinas, desenhando linhas douradas sobre o lençol que nos cobria. O cheiro do Érick, sândalo, couro e pele quente, estava em todo lugar... estava em mim.
Eu me virei devagar, sentindo cada músculo do meu corpo reclamar da intensidade da noite anterior; a lembrança de que ele havia estado em cada centímetro de mim me fazia querer reprisar aquele episódio. Ele ainda dormia. Sem a armadura e o olhar gélido típico do poderoso Érick Albelini, ele parecia quase vulnerável. Quase.
Eu não resisti e passei os dedos de leve pelo seu ombro, sentindo os músculos rígidos ali. Eu estava feliz. Era uma felicidade assustadora, daquelas que te fazem olhar por cima do ombro esperando o impacto de uma tragédia, mas ali, naquele silêncio, eu me permiti apenas... ser e sentir.
O celular dele, vibrou sobre a mesa de cabeceira, quebrou o transe em que eu estava observando o homem que me abraçava. O Érick resmungou como se tivesse sido arrancado de um sono profundo e um sonho que ele queria terminar. Ele esticou o braço, puxando o aparelho e piscou algumas vezes, focando na tela. Eu vi o momento exato em que o bicho-papão acordou dentro dele.
- Algum problema? - Eu perguntei, me sentando e puxando o lençol contra o peito. Um alarme soando dentro de mim.
- É o Julian. - Ele leu a mensagem, e o vinco entre suas sobrancelhas relaxou visivelmente. - Ele diz que o rastro da holding é limpo. Parece que o seu "benfeitor" não é uma ameaça, parece que é uma instituição ou algo assim que apóia mulheres.
- Mas... como uma instituição como essa me localizou? Por meio de quem? - Eu não entendia como, em todo o universo, uma instituição de apoio a mulheres poderia estar me ajudando sem que eu tivesse solicitado. A não ser que... - Será que o Dr. Mariano conhece alguém nessa instituição?
- Se ele conhecesse ele teria te dito, não teria?
- É, teria. Mas então, quem? - Aquilo começou a martelar a minha cabeça. Alguém estava agindo supostamente para me ajudar, mas até onde o segredo que eu estava tentando enterrar estaria seguro?
- Me diz, você, Lô. Tem certeza que não tem ninguém que, por mais que pareça louco, poderia estar interessado em fazer algo por você?
- Ninguém, Érick! - Eu o encarei com a certeza no olhar.
- Então vamos ter que esperar. O Julian vai me dar o relatório completo na segunda, mas se ele disse que o seu "benfeitor" não é uma ameaça, é porque ele já está seguro disso. Ele até me mandou "esquecer o trabalho e aproveitar o final de semana". - Ele deu um sorriso convencido. - Quem esse idiota acha que é para me dizer o que fazer?
- Seu amigo, oras?! - Eu o encarei como se dissesse o óbvio. No entanto eu me esqueci por um segundo que para ele esse óbvio não existia, simplesmente porque ninguém ditava as regras para Érick Albelini, nem mesmo o melhor amigo.
- E agora o Julian tem uma defensora na minha cama? - Ele sorriu provocativamente. - Não sei se eu gosto disso.
O Érick jogou o celular de lado e se virou para mim. Enquanto eu ainda tentava processar a sua última frase ele segurou o meu pulso e me puxou para baixo, se deitando sobre mim com um sorriso de lado surgindo em seu rosto.
- Está me dizendo que não gosta da defensora do Julian? - Eu brinquei.


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