"Julian"
Eu conhecia o Érick Albelini desde que éramos dois garotos tentando provar que o mundo era pequeno demais para nós. Eu era o seu braço direito, o homem que limpava os rastros e antecipava os golpes. Lealdade, para mim, era o meu código de conduta. E o Érick não era diferente, ele era leal e eu sabia que contava com ele da mesma forma que ele contava comigo. Mas, enquanto eu dirigia em direção à casa da Dona Heloísa, eu sentia que estava prestes a testar o limite desse código.
A D. Heloísa tinha todo o meu respeito e consideração, não só por uma vida inteira de amizade com o filho dela, mas porque ela me recebeu como um filho naquela família. Ela era calorosa e gentil, com um coração mais altruísta do que se esperava para alguém na posição dela. E assim como o filho, Heloísa Albelini tinha uma inteligência rara e sabia ler as pessoas tão bem que eu sentia como se ela tivesse olhos e ouvidos por toda parte.
E eu estava pensando nisso justamente porque sabia que quando Heloísa Albelini te chamava, você não perguntava o porquê, você apenas aparecia conforme ela instruísse. E foi o que aconteceu esta manhã, ela me ligou, me convocou e eu atendi ao seu chamado.
- Julian, meu querido. - Ela me recebeu no terraço, com o jeito afetuoso de uma mãe.
- A senhora parece muito bem, Dona Heloísa. - Eu me sentei à mesa, sentindo o ar ali carregado de algo que eu não conseguia identificar.
- Estou maravilhosa. - Ela serviu o refresco, os movimentos precisos e elegantes de uma anfitriã treinada. - Sabe, Julian... eu sempre admirei a sua discrição e a sua lealdade. O Érick tem sorte de ter um amigo como você, alguém que protege os interesses dele com tanto afinco. Especialmente agora, que ele está tão... distraído.
Eu senti o primeiro alerta. Ela não dava pontos sem nó.
- Ele está feliz, senhora, como eu nunca vi. É uma distração que eu, particularmente, apóio. Aliás, eu estive com ele ontem à noite, foi... interessante.
- Eu também apóio. - Ela sorriu, mas seus olhos azuis se fixaram nos meus com uma clareza que me fez endireitar a postura. - E é justamente por apoiar que eu fico preocupada quando vejo você cavando buracos onde deveria estar plantando flores. Isso não é ser um bom jardineiro.
- Desculpe, D. Heloísa, mas do quê exatamente estamos falando?
- Direto ao ponto como sempre. - Ela deu um sorriso adorável. - Eu soube que você está rastreando uma holding internacional. Algo sobre as dívidas da Lorena.
Eu travei com o copo a meio caminho da boca. Como ela sabia? Eu não tinha contado a ninguém, exceto ao Érick. E como ela sabia das dívidas da Lorena? A D. Heloísa não se metia no mundo empresarial?
- O Érick me pediu para investigar, senhora. Ele não gosta de "benfeitores" anônimos. A senhora sabe como ele é desconfiado. - Eu fui franco, não adiantaria tentar enrolar aquela mulher.
- O meu filho tem a mania de querer controlar até o destino. Ele não pode simplesmente aceitar que coisas boas acontecem. - Ela suspirou, se recostando na cadeira. - Essa mania que ele puxou do pai. E você sabe, Julian, como ele é impulsivo quando sente que o seu território está sendo invadido. Se ele encontrar um nome, ele vai transformar uma benfeitoria em um campo de batalha. E a Lorena... ela é sensível, Julian. Ela não aguentaria um interrogatório Albelini agora. Ela tem passado por muita coisa.
- Onde a senhora quer chegar, D. Heloísa? O que exatamente eu estou fazendo aqui? - Eu perguntei, decidindo ser direto.


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