"Lorena"
Eu remexi na mala, dando graças a Deus que a Marcelina arrumou todas as lingeries dentro de uma bolsa, de modo que eu não teria que explicar algumas coisas para a Alice. Eu puxei da mala um macacão preto e coloquei na frente do corpo, mas a Alice nem deu confiança, os olhinhos dela estavam focados em algo dentro da mala.
- Ah, Lolô, esse é lindo! - A Alice puxou um vestido de duas cores da mala. - Tem a cor dos olhos do papai.
Ela quase me convenceu com a ideia da cor dos olhos do pai, mas era um vestido muito justo, com um decote em vê nada modesto e mangas bufantes até os cotovelos. A saia era branca e a parte de cima azul claro. Era elegante demais e não era apropriado para o ambiente escolar.
- Muito justo, Alice, não posso usar isso para te levar a escola. - Eu falei e ela fez um biquinho.
- Por favor, Lolô! Você vai ficar linda e eu vou poder dizer para todo mundo que a minha Lolô é muito mais linda que aquelas mãe chatas. - A Alice argumentou. Eu ficava impressionada de ver como ela era parecida com o pai.
- Está bem. Mas só hoje, à partir de amanhã eu vou usar aquelas roupas. - Eu apontei para os cabides com calças e camisas de algodão. Ela fez uma careta e puxou de dentro da mala um par de scarpins altíssimos de couro marrom e um cinto largo da cor do sapato com uma fivela dourada. Era um exagero, mas o sorrisinhop dela não me deixou recusar.
Quando a Alice e eu chegamos à sala de jantar para o café da manhã, o Julian estava lá e foi o primeiro a me ver, parando a frase no meio e me observando de boca aberta. O Érick se virou devagar, com um sorriso de aprovação. Mas a reação da Adelaide, que vinha entrando na sala pela outra porta, foi a melhor. Ela deixou o bule de café cair, fazendo um estrondo na sala e sujando tudo de café. O Érick virou a cabeça, pronto para repreendê-la, mas eu fui mais rápida. Ele queria que eu aceitasse o lugar que ele estava me dando? Então quem resolveria as coisas da casa seria eu!
- Adelaide, que bagunça! - Eu a encarei de cabeça erguida, minha voz soando com uma autoridade que eu não sabia que possuía. - Preste mais atenção. Mande limpar isso rápido e traga outro bule de café.
Eu vi o maxilar da governanta travar. Ela olhou para o Érick, esperando uma correção, mas ele estava olhando para mim com um sorriso de satisfação nos lábios.
- Sim... senhora. - A Adelaide sibilou, a palavra saindo como veneno.
- Minha nossa, Albelini! Você deveria trancar a Lolô em casa. Ela é linda demais para ficar por aí. - O Julian bateu no ombro do amigo e me alcançou antes que o Érick se levantasse, me dando um beijo amigável no rosto. - Bom dia, Lolô, você está deslumbrante hoje!
- Obrigada, Julian. - Eu sorri, mas o Érick já estava de pé empurrando o Julian para longe de mim.
- Fique longe, Julian! A Lolô é minha... minha e da Alice. - O Érick avisou e me deu um beijo no rosto, falando baixo no meu ouvido enquanto o Julian brincava com a Alice: - Não sei o que me deu mais tesão, se esse vestido no seu corpo ou esse tom de autoridade que eu não sabia que a minha mulher tinha. Talvez eu te leve de volta para o quarto.
- Se comporte, Albelini! - Eu ri e ele puxou a cadeira para que eu me sentasse no meu novo lugar à mesa.
No café da manhã, o ar da mansão parecia ter mudado. Na verdade, o jogo tinha mudado. Eu não era mais a presa.
- Estamos brincando de trocar os lugares de novo, Lili? - O Julian perguntou com um ar zombeteiro.
- De hoje em diante é assim, Juju. A Lolô se senta entre o papai e eu, assim nós dois podemos segurar a mão dela. - A Alice contou feliz.


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