"Lorena"
A sexta feira chegou e eu estava exausta, sustentar a cabeça erguida e enfrentar todo mundo o tempo todo era cansativo demais e, ao mesmo tempo, eu sentia um alerta que eu não conseguia silenciar. Nas últimas vinte e quatro horas, a minha rotina havia virado um borrão de sensações novas.
Na escola, o clima mudou radicalmente. Ninguém mais ousava fazer gracinhas ou me confrontar diretamente. A atitude do Érick e a minha resposta ao professor Renato serviram de aviso. Agora, o pátio mergulhava em um quase silêncio quando eu passava, e só o ruído de fundo de cochichos sussurrados ameaçavam a paz. Eles ainda me julgavam, eu sentia os olhares pesados sobre mim, mas agora tinham medo de fazer isso abertamente.
Contudo, em casa, o perigo era mais silencioso e dissimulado. A Adelaide era uma sombra que me atormentava. Ela cumpria minhas ordens e organizava a casa sem protestar, mas toda vez que ela se aproximava, um calafrio percorria a minha espinha. Era uma sensação instintiva, como se eu pudesse sentir o mal chegando. Ela estava tramando, eu tinha certeza. Eu só não sabia onde ela pretendia golpear.
- A Sra. Heloísa acaba de chegar, Srta. Valente. - A voz de Adelaide soou na porta do quarto da Alice, quase como robótica. - Ela aguarda na sala.
- Obrigada, Adelaide. Nós já vamos descer. - Eu respondi e terminei de preparar a mochila da Alice.
Quando a Alice e eu chegamos a sala, ela correu para abraçar a avó. Eu olhei em volta e respirei fundo. A sala estava tomada por sacolas e caixas de grife e uma D. Heloísa radiante se levantou para me cumprimentar.
- Lorena, querida! - Ela me abraçou com carinho. - Como estão as coisas?
Eu a olhei por um momento sem saber o que dizer, mas a Alice assumiu a resposta.
- Estão muito bem, vovó! A minha Lolô é a mais linda de todas as mamães da escola. Mas sabe de uma coisa, vovó?
- Diga, querida. - A D. Heloísa perguntou interessada.
- Eu só achei um vestido de princesa nas coisas da Lolô. Parece que ela compra roupas na mesma loja que o papai, onde só vendem calças, casacos e essas camisas de botão. - A Alice tagarelou.
- Ah, pois então eu trouxe a solução. Trouxe vestidos e sapatos de princesa para a sua Lolô. - A D. Heloísa falou e me olhou de soslaio.
- Verdade, vovó? Então você vai ser a fada madrinha da Lolô? - A Alice perguntou animada.
- Eu acho que sim. - A avó sorriu para a neta e no mesmo momento o Érick apareceu surgiu na sala, vindo do escritório.
- Mãe! Até que enfim! - Ele reclamou antes de dar um beijo na mãe.
- Você me pediu algo especial e isso leva tempo. - A D. Heloísa respondeu, enquanto o filho lhe dava um beijo.
- Você envolveu a sua mãe nisso, Albelini? - Eu encarei o Érick que teve a decência de parecer constrangido. - Mesmo depois de eu dizer não.
- Lorena, você não entende que... - O Érick tentou se justificar.
- Nem você entende, Albelini! Leve a Alice para dar uma volta no jardim, me dê uns minutos de privacidade com a Lorena. - A D. Heloísa o interrompeu me dando uma piscadinha.
- Mãe... - Ele tentou reclamar.
- Vá, Érick! - Eu sibilei e ele saiu da sala levando a Alice pela mão.
- Olha, ele te escuta! - A D. Heloísa sorriu, segurou a minha mão e me fez sentar ao seu lado.
Eu olhei para as estampadas em todas aquelas sacolas e caixas e senti um nó na garganta.


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