— Samuel, desiste. A Rebeca não vem.
Rui Passos começava a achar que Rebeca Ribeiro não tinha coração.
Samuel Batista baixou os olhos, escondendo a profunda decepção, e finalmente cruzou as portas do hospital.
Mais um dia de chuva.
O fim de outono na Cidade R era sempre envolto em neblina e garoa fina, um clima cinzento que parecia infiltrar umidade até na alma.
Rui Passos foi buscar o carro no estacionamento e mandou Samuel esperar na entrada, avisando para não se molhar.
A entrada de um hospital era um lugar de fluxo contínuo, alheio às estações do ano.
De repente, uma menininha com uma cesta de flores aproximou-se, tímida.
— Oi, moço.
Samuel abaixou o olhar.
A menina devia ter uns seis ou sete anos e usava duas trancinhas.
Os olhos eram lindos.
Pareciam com os de Rebeca.
Samuel ficou paralisado, perdido em pensamentos.
Se o filho que teve com Rebeca estivesse vivo, provavelmente teria aquela idade, não é?
Se fosse uma menina, certamente seria a cara da mãe.
Teria aqueles mesmos olhos brilhantes?
— Eu fico com todas as flores. — Samuel procurou o celular apressado. Mas parou antes de transferir o dinheiro.
A menina provavelmente não tinha celular.
Ele se agachou para encará-la na mesma altura e falou com seriedade:
— Eu não trouxe dinheiro vivo. Você pode me esperar dois minutinhos? Eu vou sacar e já volto.
A menininha balançou a cabeça.
— Essas flores já são do senhor.
— Minhas? — Samuel franziu a testa, confuso.
Ela assentiu.
— Uma moça muito bonita já pagou. Ela pediu para eu entregar para o senhor.
— Uma moça? Onde ela está? — Samuel levantou-se num salto, os olhos varrendo a rua num desespero para capturar um vislumbre daquela silhueta conhecida.
Mas a menina cortou suas esperanças.
— Ela já foi embora.
Uma esperança esmagadora e uma decepção brutal colidiram dentro do peito de Samuel.
Da mesma forma que Helena Castro defendia Rebeca de forma incondicional.
— A Rebeca está sendo cruel demais. Tudo bem, você errou feito um canalha no passado, mas poxa, você sacrificou um órgão por ela! Ela não podia pelo menos colocar tudo na balança e te dar uma última chance?
Era a porra de um rim!
Se fosse o Rui, ele jamais faria algo do tipo.
Samuel apertou o amuleto ainda mais. Sua voz saiu rouca, destruída.
— Mas o dano que eu causei a ela foi real. Se fosse você, aceitaria de volta alguém que te descartou no passado?
A pergunta calou Rui Passos na hora.
A resposta óbvia era não.
Antes, ele pedia que Rebeca perdoasse o amigo porque achava que a situação ainda tinha conserto.
Afinal, por muito tempo, Rui acreditou que Rebeca estava interessada em Israel Passos.
Logo, na cabeça de Rui, mesmo que Samuel tivesse ido embora, Rebeca não teria sofrido tanto e superaria a dor.
Mas só depois que Helena Castro jogou toda a verdade na sua cara, ele percebeu o quão idiota havia sido.
Ele havia destroçado o coração sincero de Rebeca.
A dor dela foi mil vezes pior do que qualquer um poderia mensurar.
Como ela havia conseguido sobreviver àqueles dias obscuros?

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