Rui Passos, no entanto, não estava com cabeça para aquilo.
Seus olhos estavam vermelhos. Suas roupas, sempre tão impecáveis, agora estavam amarrotadas.
Vendo a situação, Rebeca Ribeiro ergueu a mão, sinalizando para Marina Domingos não interferir.
Ela mesma saiu da sala de reuniões para falar a sós com ele.
— Rebeca, você pode ir ver o Samuel, por favor? — Rui Passos pediu, a voz soando quase como uma súplica.
Com medo de ser rejeitado, ele apelou para o último recurso:
— Faça isso pelo rim que o Samuel doou para a sua mãe. Vá vê-lo, tá bem?
Rebeca sentiu como se sua garganta tivesse sido perfurada.
Não conseguia emitir um único som.
Seu coração pareceu parar por longos segundos antes de ela finalmente reencontrar a voz.
— O que você disse? — perguntou, trêmula.
— Você não está confundindo as coisas? Ele só doou medula óssea para a minha mãe.
Rui Passos ergueu a mão e secou o canto dos olhos.
— Não estou mentindo. O rim que a sua mãe recebeu no transplante foi do Samuel. Ele não queria que você soubesse, nunca contou a ninguém. Eu só descobri porque ouvi sem querer uma conversa dele com o advogado.
Há dois dias, Samuel Batista havia se encontrado com Isaque Farias para discutir sobre o seu testamento.
Foi por puro acaso que Rui Passos acabou descobrindo toda a verdade.
Para ser sincero, ele ficou em choque.
O quão profundo precisava ser o amor de alguém para fazer um sacrifício tão imenso?
Ele chegou a perguntar isso diretamente a Samuel Batista.
Samuel respondeu com uma calma assustadora:
— Se não fosse pela Rebeca, o Samuel Batista já teria deixado de existir neste mundo há muito tempo.
A vida dele havia sido salva por ela.
Um rim não era nada.
A revelação caiu como uma bomba, deixando Rebeca atordoada. Seus cílios tremiam.
Seus olhos ardiam. Um nó sufocante se formou em sua garganta.
— Por que ele está na sala de emergência? — ela perguntou, a voz embargada.
Há uma semana, ele parecia perfeitamente bem.
Rebeca fez um esforço hercúleo para manter a compostura.
— Eu ligo.
Como pai, Marcos Batista era o único parente de sangue de Samuel no mundo.
Ele tinha o direito de saber.
Apesar de ter se preparado mentalmente, no instante em que a chamada completou, as palavras sumiram.
Uma dor aguda perfurava seu peito. O medo do desconhecido a engoliu, deixando-a muda.
Foi Marcos Batista quem quebrou o silêncio:
— O que houve, minha filha?
A linha ficou em silêncio por mais alguns segundos.
Como se adivinhasse o pior, o mais velho perguntou:
— Aconteceu alguma coisa com o Samuel?
— Me desculpe... — a voz de Rebeca estava embargada pelo choro.
Seu peito se contraiu violentamente. A sensação de sufocamento quase a devorou por inteiro.

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