Normalmente, apenas a diarista subia para limpar o andar de cima.
Helena Castro andava na ponta dos pés, com medo de acordar Klara Rocha.
Nem se atreveu a acender a luz, guiando-se apenas pelo brilho da tela do celular.
Como costumava ir com frequência à adega de Rebeca Ribeiro para pegar bebida, conhecia bem o caminho e conseguia se orientar no escuro.
Só acendeu a luz depois de entrar na adega. Estava toda feliz, prestes a escolher uma garrafa.
Mas levou um susto enorme ao ver uma silhueta encolhida no sofá.
Um fantasma...
Ela quase gritou de pavor.
Por sorte, reconheceu que era Rebeca Ribeiro antes de soltar o grito.
Rebeca Ribeiro vestia roupas leves de ficar em casa e estava com o cabelo solto.
As mechas caíam cobrindo parte do seu rosto, o que realmente a deixava com um aspecto assustador de relance.
— Achei que você estivesse fazendo hora extra na empresa. — disse Helena Castro, batendo no próprio peito para acalmar as palpitações do susto.
Ela olhou para a garrafa vazia no chão e arqueou a sobrancelha.
— O que foi? Alguma coisa te perturbando?
Rebeca Ribeiro esperou Helena Castro se sentar e se apoiou nela.
Helena Castro virou levemente o rosto e notou o rubor avermelhado nas bochechas da amiga.
Estava na cara que ela tinha bebido bastante.
— Sinto que tem algo de muito errado comigo. — murmurou Rebeca Ribeiro, com a voz embolada, depois de engolir o resto da bebida que estava no copo.
— Deixe-me adivinhar. É por causa do Samuel? — Helena Castro também se serviu de uma taça.
— Parabéns, acertou.
Helena Castro apenas suspirou.
— Isso não é um bom sinal.
— Eu sei. — balbuciou Rebeca Ribeiro.
— Sabe de quê?
— Sei que isso é errado. — a voz de Rebeca Ribeiro saiu um pouco rouca. — Ele me abandonou no passado. Eu demorei tanto para conseguir me salvar. Mas por que estou começando a me abalar por causa dele de novo nos últimos dias?
Ela perguntou, com os olhos vermelhos, encarando Helena Castro:
— Eu sou uma decepção, não sou?
Vendo que ela ia encher a taça de novo, Helena Castro segurou a mão dela rapidamente.
— Ei, calma aí. Chega de bebida por hoje.
Quando bebia, Rebeca Ribeiro nunca conseguia resistir às ordens de Helena Castro. Acabou cedendo, deixando o corpo amolecer no sofá estofado enquanto encarava a luz do teto com o olhar distante.
A exaustão profunda em seus olhos fez o coração de Helena Castro apertar de pena.
Rebeca Ribeiro cobriu os olhos com as costas da mão, sentindo o peito se encher lentamente de uma emoção confusa e indescritível.
Ela pediu a Helena Castro:
— Amiga, me promete uma coisa? Não importa quando seja, você tem que sempre me lembrar de manter a razão. Não pode deixar eu me afundar de novo.
Helena Castro precisou de muito esforço para levar Rebeca Ribeiro de volta ao quarto.
Ela havia bebido demais e apagou assim que encostou na cama.
Helena Castro ficou com um gosto amargo na boca.
Sua amiga era uma mulher de negócios incrível, forte e destemida. Mas aquele cachorro do Samuel a tinha reduzido àquilo.
Que raiva!
Torcia para não topar com Samuel tão cedo. Se topasse, mostraria a ele como é que se faz picadinho de canalha!

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