Helena Castro piscou devagar até recobrar os sentidos e percebeu que estava num quarto de hospital.
Havia um acesso de soro preso às costas da sua mão. A vovó Cruz estava sentada ao lado da cama, observando-a com uma expressão de pura angústia.
Filipe Cruz estava de pé logo atrás da idosa, com o semblante frio e endurecido.
Mas o detalhe que mais prendeu a atenção de Helena Castro foi a marca vermelha de um tapa na bochecha dele.
Estava bem nítida.
Provavelmente a autora do tapa era a vovó. Mais ninguém no mundo teria coragem para bater nele.
Desconfortável sob o olhar dela, Filipe Cruz virou o rosto para o lado.
— Vou chamar o médico.
A vovó Cruz o ignorou por completo. Toda a sua atenção estava voltada para a neta postiça. Ela segurou a mão de Helena e murmurou com a voz embargada:
— Minha menina, por que você não me contou que ele estava te maltratando?
— A culpa é minha. Eu deveria ter arrastado aquele marginal até o cartório pelo colarinho. Achei que ele fosse cumprir a palavra de homem e deixar vocês terminarem em paz. Eu não quis me meter, mas quem diria que ele ia agir feito um animal!
A vovó Cruz ficava cada vez mais triste enquanto falava. Seus olhos já marejavam.
— Mas independentemente de qualquer coisa, você não devia ter negligenciado a sua saúde. O médico disse que você teve uma crise de hipoglicemia. Disse que você passou o dia inteiro sem comer. Você já é tão magrinha!
Então ela tinha desmaiado de fome.
Helena Castro não tinha a menor lembrança daquilo.
O médico entrou para examinar Helena Castro e avisou que ela estava com um pouco de febre. Precisaria passar a noite ali, em observação.
Não era à toa que sua cabeça latejava daquele jeito. A culpa era da febre.
Ao ouvir isso, a avó ficou ainda mais apavorada.
— Então eu vou passar a noite aqui com você.
Como Helena Castro poderia deixar uma senhora de oitenta anos dormir num hospital só para fazer companhia a ela?
Ela recusou repetidas vezes, insistindo que era apenas um resfriado leve. Nada grave.
Ela conseguia muito bem se cuidar sozinha.
E, além disso, estavam num hospital. Havia médicos e enfermeiras de plantão.
Mas a vovó Cruz era dura na queda. No fim, ela cedeu um pouco e decretou que Filipe Cruz ficaria ali para cuidar da esposa.
Um cuidado mais inútil, impossível.
Mesmo assim, Helena achou melhor enrolar a velha para mandá-la de volta para casa logo.
Assim que a porta se fechou e a idosa foi embora, a máscara de Helena Castro caiu. Com a cara totalmente fechada, foi direta ao ponto com Filipe Cruz:
— Ninguém precisa de você aqui. Pode ir embora.
Filipe Cruz mergulhou em um silêncio de alguns segundos antes de perguntar:
Ficou um tempo encarando o nada, mas logo as pálpebras pesaram de novo.
Estava exausta. Ela realmente precisava de uma noite inteira de sono.
Mas seu sono foi agitado, infestado de pesadelos.
No sonho, sua tia a acusava injustamente de roubar uma joia e vendê-la. Ela negou até a morte.
Como punição, seu tio a trancou em um quarto escuro, sem comida e sem água.
Ela estava morrendo de fome e de sede. Sua garganta estava tão seca que parecia arder em chamas. Tudo que conseguia murmurar era:
— Água... água... me dá água...
Justo quando sentiu que estava à beira de morrer desidratada, alguém derramou um filete de água morna em seus lábios.
Ela bebeu avidamente, engolindo em goles grandes e desesperados.
A garganta que ardia em brasa finalmente foi salva.
Sua consciência foi sendo puxada para fora das garras do pesadelo.
— Acordou?
Ela ouviu uma voz muito familiar.
E não era de Filipe Cruz.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sete Anos de Espera, Um Adeus Sem Volta