Rebeca Ribeiro caminhou inconscientemente até as janelas panorâmicas.
Ela estendeu a mão, tentando tocar os flocos de neve que rodopiavam no ar.
Foi só quando seus dedos esbarraram no vidro frio que ela percebeu que ainda estava do lado de dentro.
Neve na Cidade H era um fenômeno raro. Ninguém queria perder aquele espetáculo.
As pessoas até pararam de tirar fotos lá dentro e correram para o andar de baixo.
Até mesmo Renato Lage convidou Rebeca Ribeiro para descerem juntos.
A secretária, com sua inteligência social afiada, aproveitou a deixa para puxar o saco.
— Dizem que neve no momento certo é sinal de prosperidade. Essa bênção dos céus significa que a parceria entre o Grupo Solverde e a NovaSilicium vai ser um sucesso absoluto!
Renato Lage deu uma gargalhada, visivelmente satisfeito.
Até Rebeca Ribeiro sentiu uma leveza inexplicável no peito.
Mas, quando o grupo chegou lá embaixo, não sentiram nem um pingo de frio.
A temperatura da Cidade H não mentia, e não havia neve acumulada no chão.
Os flocos que caíam na palma da mão mal duravam dois segundos antes de virarem gotas d'água.
Aquela neve estava estranha.
— Parece neve artificial. — alguém sugeriu.
A teoria foi confirmada rapidamente.
Rebeca Ribeiro também avistou a máquina de fazer neve.
Era tudo falso.
Cecília Lage suspirou, desapontada.
— Eu sabia! Como a Cidade H ia nevar do nada?
— Mas que é romântico, isso é. Que CEO milionário será que está fazendo essa declaração de amor? — ela disse, com os olhos brilhando. — Se alguém se declarasse para mim de um jeito tão romântico, eu casava na hora!
Renato Lage deu um tapinha de leve na cabeça dela.
— Você se deixa enganar por qualquer truque barato? Tenha modos! Isso aí é pura tática de boy lixo!
— Ai, você sempre destrói as minhas fantasias! Desse jeito, eu vou acabar solteira para sempre. — Cecília Lage resmungou, massageando a cabeça e reclamando da falta de romantismo de Renato Lage.
Renato Lage ficou sem saber se dava uma bronca ou se deixava para lá.
A máquina continuava a jorrar neve, e os pedestres paravam para olhar.
Alguns admiravam, outros tiravam fotos.
O celular de Rebeca Ribeiro vibrou.
Era uma mensagem.
De um número sem nome salvo, mas que ela sabia muito bem a quem pertencia.
Ele dizia:
[Me perdoa.]
— Você tem toda a razão! Vou agora mesmo pro spa fazer um pacote completo.
Rebeca Ribeiro riu da empolgação da amiga.
— Vai lá, aproveita. Coloca tudo na minha conta.
Helena Castro deu um beijo estalado no alto-falante do celular.
— Te amo, minha patrocinadora!
Rebeca Ribeiro sentiu os pelos do braço arrepiarem.
— Tchau, vou desligar!
Helena Castro trocou de roupa e saiu de casa cantarolando, a caminho do spa.
Mas, antes mesmo de chegar, o celular tocou com o nome de Filipe Cruz na tela.
Por algum motivo, a pálpebra direita dela tremeu duas vezes.
Mau presságio.
Ela não ia atender!
Desligou na cara dele.
Não ia deixar um cachorro estragar o seu bom humor.
Filipe Cruz não ligou de novo, mas mandou uma mensagem.
[Precisamos alterar uma cláusula no acordo de divórcio. Venha até o Grupo Cruz.]

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