Do ponto de vista de Freya
— Eu já disse antes — sussurrei, com os punhos tremendo ao lado do corpo. — Toda vez que ela insultar meus pais, eu vou bater nela. Ainda falta um golpe.
A voz de Parker cortou o ar frio, firme, porém afiada.
— Não vou deixar você tocá-la outra vez.
— E se eu tiver que fazer isso? — retruquei, a voz se quebrando em algo selvagem.
— Ela é uma Williams — disse ele, posicionando-se à frente de Jenny. — Não é alguém que você possa tocar quando bem entender.
O corpo dele bloqueava o meu; sua postura era protetora — para com ela, não comigo. Por um momento, me faltou o ar.
Ele estava fazendo isso por ela.
Pela garota que cuspira no nome dos nossos pais.
Um rugido em chamas se acendeu no meu peito. A fúria do meu lobo subiu como uma onda, suas garras arranhando sob a minha pele. Antes que eu pudesse me conter, desferi um golpe. Meu punho atingiu com força o abdômen dele. O impacto reverberou nos meus nós dos dedos e se cravou nos meus ossos.
— Aqueles eram nossos pais! — gritei, a voz áspera. — Eles te deram a vida! Você sabe quem é, Parker — eu sinto, eu vejo nos seus olhos. Como pode ficar aí, protegendo quem zombou deles? Se eles pudessem te ver do abraço da Lua, se os espíritos deles estivessem olhando agora… como poderiam descansar em paz?
Minha voz se quebrou na última palavra. O mundo ficou embaçado, a visão turva pelas lágrimas que me recusei a deixar cair.
Mesmo que meu irmão tivesse perdido todas as lembranças de quem era — mesmo que a última missão da Unidade de Reconhecimento Presa de Ferro tivesse apagado tudo — eu poderia perdoá-lo. Poderia perdoar a confusão, o silêncio, a negação.
Mas isso… isso eu não podia perdoar.
Ele não bloqueou o golpe. Nem sequer se mexeu até a dor penetrar fundo. Vi o ar escapar dos seus pulmões num suspiro cortante, mas ele não contra-atacou. Nem levantou a mão. Apenas me encarou — os olhos escuros, turbulentos — e, por um instante, pensei ver um lampejo de culpa.
A voz estridente de Jenny rompeu o momento.
— Você bateu nele!? — levou as mãos ao rosto, ainda vermelho de antes, com um tom que subia num deleite histérico. — Você está acabada, Freya Thorne! Os Williams não vão deixar isso passar!
Ela riu, um som cruel e triunfante que arranhou meus ouvidos.
— Ele é o único filho do patriarca Williams. E você? Só uma perdida de um ramo quebrado da matilha Stormveil. Acha mesmo que alguém vai ficar do seu lado?
Antes que eu pudesse responder, Lana se colocou entre nós, a voz tão feroz quanto o lobo que se agitava sob sua pele.
— Acha que os Williams nos assustam? Isso aqui já não é o seu Domínio — isto é a Capital. Cuida da sua língua, garota.
Jenny fez uma careta.
— E daí? Isso torna menos verdade? Ela me bateu! Todo mundo viu! — virou-se, apontando de forma exagerada para os guardas da SkyVex Armaments que se aproximavam. — Todo mundo viu! Ela me atacou a mim e ao suposto irmão dela — vão, digam a eles! Digam o que presenciaram!
— Sim — cuspiu Lana —, e eles também viram você insultar os pais dela, não foi? Mártires do Salão da Legião? Não acha que isso significa alguma coisa?
Os guardas hesitaram, os olhares indo e vindo, inseguros.
Um deles, o mais velho, pigarreou e falou com cautela:
— Senhorita Thorne… talvez seja melhor a senhora se desculpar. A jovem aqui presente é uma Williams. Todos na Capital conhecem os laços da família dela com o Consórcio Ironhold. A senhora não vai querer fazer inimigos que não possa enfrentar.
— Me desculpar? — virei-me lentamente para ele, deixando minha voz descer a um sussurro gelado. — Com ela?
Meus olhos se cravaram nos de Jenny. O lobo dentro de mim se agitou outra vez — frio, afiado, protetor.
— Ela não é digna da minha desculpa.
O rosto de Jenny ficou escarlate.
— Você—
Antes que pudesse terminar, o som de motores encheu o pátio.

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