Ponto de vista da Freya
-Ah—!
O grito da Jenny rasgou o silêncio do lance de escadas tomado pela fumaça, agudo e selvagem.
Seu corpo se inclinou para trás, as botas arranhando inutilmente a pedra queimada enquanto a gravidade a puxava para baixo. O instinto a fez agarrar o ar, os dedos buscando qualquer coisa, qualquer pessoa, para impedir a queda.
Eu me movi antes de pensar.
Minha mão disparou, os dedos se fechando em seu pulso justo quando seu peso a arrastava para baixo.
O impacto puxou meu ombro quase para fora da articulação.
Por meio segundo, o mundo se resumiu à dor, ao calor e ao rugido do sangue nos meus ouvidos.
Então ela parou de cair.
Jenny congelou, suspensa sobre o vazio.
Três andares abaixo, a luz do fogo tremeluzia como as mandíbulas de uma fera à espreita.
Seus olhos se voltaram para os meus, arregalados de descrença. Então — a compreensão surgiu.
E ela riu.
Um som estridente, histérico, que ecoou pelas paredes rachadas.
-Freya,- ela gargalhou. -Mesmo agora, você me salva? Mesmo depois de eu ter tentado te matar?
Sua mão apertou meu braço, as unhas cravando na pele.
-Vai em frente,- continuou, ofegante e selvagem. -Me odeie. Me amaldiçoe. Mas você não pode me deixar morrer. Você não vai. Porque só eu posso salvar a Lina. E você sabe disso.
Meu maxilar se contraiu.
Ela não estava errada.
A vida da Lina dependia da medula e das células-tronco alinhadas à lua. E Jenny era a única compatível que encontramos.
Por mais que eu quisesse soltar—
Eu não podia.
O lobo dentro de mim rosnou, furioso, contido apenas pelo juramento e pelo instinto.
-Você me enoja,- disse friamente.
Ela só riu ainda mais.
-Ah, mas mesmo se você me salvar agora,- ela zombou, os olhos deslizando até minha garganta, -você ainda vai ter que morrer.
Seu olhar se fixou no cristal vermelho-sangue pendurado no meu pescoço.
O Rubi Coração da Lua.
Uma relíquia forjada antes da divisão das alcateias. Uma chave. Uma promessa. Um fardo.
Sua mão subiu.
Uma arma.
A essa distância, mesmo com seu peso pendurado desequilibrando-a, ela não erraria.
Vi o cálculo passar por seus olhos.
Se eu a soltasse agora, ela cairia. Mas não de forma limpa. O ângulo poderia fazer com que ela atingisse o patamar do segundo andar. Machucada, sim — mas provavelmente viva.
E se eu não a soltasse...
Ela poderia me atirar.
Me matar.
E então pegar o colar do meu cadáver.
Ela sorriu, o dedo apertando o gatilho.
Eu não dei chance.
Levantei o joelho e dei um chute forte.
Minha bota acertou seu pulso com precisão brutal.
A arma voou de sua mão, caindo com estrondo pelas escadas quebradas e desaparecendo na fumaça lá embaixo.
Sua expressão se despedaçou.
-Você—!
-Você fala demais,- respondi com aspereza. -Se quer me ver morta, está longe de ser capaz.
Me preparei, ajustando a postura, pronta para puxá-la para cima e nocauteá-la. Uma vez desacordada, eu poderia carregá-la para fora do prédio.
Esse era o plano.
Então a explosão aconteceu.
O mundo explodiu.
Uma onda de choque atingiu meu corpo, calor e pressão arrancando o ar dos meus pulmões. Fui jogada para o lado, a coluna batendo contra a parede de pedra com força que fez os ossos estremecerem.
O corrimão ao nosso lado se estilhaçou.
O metal gritou ao se desprender.
Jenny gritou.
A explosão lançou seu corpo para fora, além da borda do lance de escadas.
Todo o seu peso caiu.
Agora ela não estava mais pendurada sobre degraus.
Estava pendurada sobre o vazio.
Três andares inteiros.
Se ela caísse direto até o primeiro andar, seu corpo humano não sobreviveria.

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