O avô olhou para Karina, e toda a sua amabilidade desapareceu dos olhos.
"Antônio já se foi, eu mesmo não tenho mais vontade de viver faz tempo, por que você ainda me segura aqui? Você só não quer abrir mão dessa vida de conforto, com tudo nas mãos, não é?"
"Não é isso, é que eu estou preocupada... daqui para frente, tudo na nossa casa vai precisar de dinheiro, até o básico para comer e viver..."
Karina tentou se justificar, mas o avô a interrompeu.
"Você só tem 45 anos e já não consegue mais trabalho? Se for lavar louça em restaurante, você não morre de fome!"
"Pai," Karina protestou, "esses últimos anos, finalmente consegui não precisar fazer trabalho pesado, gastei dezenas de milhares de reais em clínicas de beleza para manter minha pele assim, não posso voltar à vida de antes."
O avô franziu a testa imediatamente.
"Nossa família nunca foi rica, você é uma mulher comum, por que gastar tanto dinheiro com isso?"
Karina tocou no coque perfeitamente arrumado. "E se minha alma gêmea demorar para chegar?"
O avô levou a mão ao peito.
Celina logo tentou acalmá-lo: "Vovô, Dona Marques está só brincando, não leve a sério."
"Celina, eu estou..."
Karina tentou afirmar que estava falando sério, mas o olhar severo de Celina a fez engolir as palavras.
O avô segurou a mão de Celina.
"Se não fosse porque Antônio partiu tão cedo, o peso da Família Marques nunca teria caído sobre você. Menina, nós nunca cuidamos de você esperando algo em troca. Não coloque seu futuro a perder por uma casa que não é sua, cof... cof..."
Celina notou os lábios arroxeados do avô, sabia que ele estava tendo outra crise, e correu para lhe dar o remédio.
"Papai, pare de bancar o orgulhoso. Essa casa vai ser desapropriada em breve, e a indenização é só cinco mil reais. Se Celina sair da Família Tavares, quem vai comprar uma casa para a gente morar?"
O avô recuperou o fôlego e lançou um olhar furioso para ela.

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