Capítulo 326 — Operação: “Em busca do Hermanito perdido”
José Alves
O vento frio do fim de tarde do Brooklyn batia contra o meu rosto, mas eu estava suando. Minhas mãos, enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria preta que a Sammy tinha me obrigado a comprar semanas atrás, não paravam de tremer. Eu, que já tinha encarado armas apontadas para a minha cabeça, que já tinha lutado pela vida em uma cama de hospital e enfrentado o diabo de frente sem piscar, estava prestes a ter um ataque cardíaco por causa de uma minúscula caixinha de veludo azul.
Caminhei de um lado para o outro no terraço infinito daquele prédio industrial reformado. O sol começava a se esconder atrás do horizonte de Manhattan, pintando o céu com tons de laranja, rosa e roxo, e acendendo as luzes da cidade que nunca dormia.
Parei por um segundo e olhei ao meu redor. O lugar estava irreconhecível. E tudo isso era culpa da mente brilhante, estrategista e absurdamente exagerada de Atlas Wilson.
Quando o engomadinho me disse na porta da Tiffany que tinha uma ideia, eu achei que envolveria um restaurante absurdamente caro, um violinista chato e uma garrafa de champanhe que custava o preço de um carro popular. Mas o Atlas me olhou nos olhos, no meio do shopping, e disse as palavras que mudaram o rumo de tudo:
"A minha irmã odeia clichês de restaurante, José. Ela gosta de ação, gosta de significado. Ela teve a vida roubada por muito tempo com cuidados excessivos pela saúde frágil, e por esse irmão aqui extremamente protetor e exagerado. Você é o garoto do Brooklyn que ganhou o mundo dela e a fez se sentir viva. Então, traga ela pro seu mundo. Nós vamos fazer um jogo com a minha garotinha. Uma escolta de honra."
E foi exatamente isso que fizemos. O plano mirabolante do Atlas envolveu mobilizar absolutamente o esquadrão inteiro. A ideia era simples na teoria, mas um caos absoluto na prática: eu iria sumir. Desaparecer completamente do mapa sem dar satisfações. As meninas Sammy, Juliet, Taylor, Jen e Penny ficaram encarregadas de interceptar a Athena no apartamento e arrumá-la sob a desculpa de um "jantar das garotas". E então, a caçada começaria. Ela seria guiada até mim através de uma rota de checkpoints, escoltada por cada membro da família que nós construímos.
A execução desse plano, no entanto, foi a coisa mais cômica e desesperadora que eu já vi na minha vida.
Passei a tarde inteira assistindo aos homens mais letais e poderosos de Nova York agindo como se fossem organizadores de casamento em surto. O terraço havia sido transformado em um oásis urbano. Havia centenas de luzes de fadas penduradas em cordões invisíveis acima das nossas cabeças, criando um teto de estrelas particular. Velas grossas de tamanhos diferentes formavam um caminho serpenteante desde a porta de ferro do elevador até o centro do terraço, onde um arco de orquídeas brancas e rosas vermelhas exalava um perfume doce no ar.
O problema foi chegar a esse resultado. Eu nunca vou me esquecer da cena do Declan praguejando em três línguas diferentes porque seus dedos, do tamanho de salsichões, não conseguiam amarrar as fitas de cetim nos arranjos de flores sem rasgá-las. Chris passou duas horas tropeçando nos fios das luzes e ameaçando atirar nas lâmpadas que não acendiam. Dom, com sua paranoia eterna de agente federal, ignorou a decoração e passou a tarde mapeando o perímetro, verificando rotas de fuga e posicionando atiradores de elite nos prédios vizinhos para garantir que absolutamente nenhum inimigo estragasse o momento.
Elijah e Esther também foram recrutados, porque Atlas disse que todos que o ajudaram com a Athena precisavam estar aqui, que minha princesa merecia ter essas pessoas comemorando com ela. Eles ajudaram na montagem da decoração e o resultado? Esther brigando com o Declan sobre o risco de incêndio das velas e exigiu extintores posicionados a cada cinco metros. Elijah passou meia hora reclamando que eu estava pálido demais, que mesmo já fazendo um mês fora do hospital o corpo demora a se recuperar, e ainda ameaçou tirar a minha pressão arterial no meio do terraço. A sorte foi que a Mia (a namorada dele que fingia ser só uma amiga) parecia ser a única pessoa sã naquela loucura, e interveio antes que tudo virasse caos. Ela riu da nossa cara, organizou a bagunça dos fios, acalmou a Esther e distribuiu garrafas de água para todo mundo, garantindo que o cronograma não atrasasse.
E Noah... bom, o CEO apenas cruzou os braços, observou o caos, pegou o talão de cheques e resolveu qualquer problema logístico extra com quantias obscenas de dinheiro, mandando entregar no terraço o melhor buffet da cidade.
Até o meu pai apareceu mais cedo. Juan Rivera, o odiado Snake (não por nós é claro) subiu até o terraço no meio da tarde com os seguranças dele. O Predador olhou para as flores, para as velas, para o meu terno alinhado e, sem dizer muita coisa para os outros, caminhou até mim. Ele me deu um abraço apertado, o tipo de abraço que cura qualquer trauma de infância. "Estou orgulhoso de você, Hijo", ele sussurrou perto do meu ouvido. "Mostre a essa garota como um futuro Rivera ama a sua mulher." (futuro Rivera… essa eu vou deixar pra contar outra hora). Depois de suas palavras, ele desceu para assumir o posto dele no jogo.
Cara isso não é um jogo… isso já tá beirando cena de filme.
Tirei a mão do bolso e olhei para o relógio no meu pulso. Dezoito horas e trinta minutos.
Apertei o pequeno comunicador de rádio preto preso no meu ouvido. A mesma frequência que o Dom usa para coordenar invasões táticas e resgates estava sendo usada para coordenar o meu pedido de casamento.
— Qual o status da carga? — Falei no microfone preso na lapela do terno, a voz saindo um pouco mais rouca que o normal.
Um chiado estático rápido foi seguido pela voz do Atlas.
— A fera foi solta, José. — Atlas reportou, e eu podia ouvir o barulho do trânsito de Manhattan ao fundo. — As meninas fizeram um trabalho impecável. A Athena está vestida pra matar, mas está perdendo a paciência porque você sumiu e não atende a porra do celular. Eu entreguei o primeiro cartão para ela na porta do prédio. Ela revirou os olhos daquele jeito que só ela sabe fazer, reclamou, mas entrou no carro. Declan, é com você.
O rádio chiou novamente.
— Reed na escuta. Porra sempre quis falar isso. — todos nós rimos pelo comunicador, meus amigos estavam se divertindo com tudo isso. — A princesinha embarcou na minha SUV. — A voz do Declan soou divertida e carregada de sarcasmo. — Ela acabou de ler o cartão do Atlas e agora cruzou os braços de cara fechada, exigindo saber para onde estamos indo. Operação: “Em busca do Hermanito perdido” em andamento.
Soltei uma risada nervosa, passando a mão pelo cabelo. Eu podia imaginar perfeitamente a cena. A Athena emburrada no banco de trás, exigindo respostas, mas com o coração batendo rápido de curiosidade.
O plano das cartas foi a cereja do bolo do engomadinho. Em cada checkpoint, um membro da nossa família entregaria a ela um cartão preto com o selo dourado, escrito à mão por eles mesmos. Não era só uma brincadeira de esconde-esconde; era a nossa família inteira entregando a bênção deles para nós.
A carta do Atlas dizia que o maior orgulho da vida dele era ver a mulher forte que ela tinha se tornado, e que estava na hora de ele deixá-la voar. A do Declan, que estava dirigindo agora, falava sobre como ele se sentia honrado em ser o escudo dela sempre que precisasse, mas que hoje, ela não precisava de escudo nenhum.
— Chegamos ao ponto de extração. — Declan avisou alguns longos minutos depois. — Carga entregue aos federais no saguão do prédio. Boa sorte, garotinha.

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