Capítulo 324 — Daqui Até a Eternidade
José Alves
O silêncio na mesa da praça de alimentação foi tão ensurdecedor que eu quase podia ouvir as engrenagens no cérebro do Atlas travando. Ele parou com a garrafa de cerveja a poucos centímetros da boca, os olhos arregalados, processando a frase que eu tinha acabado de soltar.
— Como é que é? — Atlas perguntou, a voz saindo num misto de choque e descrença. Ele colocou a garrafa na mesa com um baque seco. — Casamento, José? A Athena é nova! Vocês têm poucos meses juntos, porra. É cedo demais pra uma decisão dessas!
Eu não recuei. Mantive o olhar firme no do meu cunhado e cruzei os braços sobre a mesa, espelhando a postura defensiva dele.
— Cedo demais? — Rebati, erguendo uma sobrancelha. — Atlas, você e a minha irmã também são recentes. Vocês estão juntos há poucos meses, já estão noivos e esperando o Eros nascer. Vai me dizer que o tempo de vocês vale mais que o meu?
Declan, que estava tomando um belo gole da sua cerveja, quase engasgou. Ele começou a rir alto, limpando a boca com as costas da mão.
— Caralho. — Declan gargalhou, apontando para mim com a garrafa. — Você pegou o Atlas nessa. Sem direito a recurso.
Mas eu não estava rindo. O rosto do Atlas tinha fechado de um jeito que eu conhecia bem. O clima pesou. Eu precisava saber qual era a verdadeira barreira ali.
Inclinei o corpo para frente e o questionei, direto ao ponto:
— O problema é por sermos recentes, Atlas... ou por ser eu?
A pergunta pareceu atingir o engomadinho como um soco no estômago. A postura defensiva dele murchou. Ele desviou o olhar para a mesa, os ombros caindo. Ele ficou em silêncio por longos segundos, o barulho do shopping ao nosso redor parecendo distante.
Atlas respirou fundo, esfregando o rosto com as mãos antes de voltar a me olhar. A hostilidade tinha sumido, dando lugar a uma vulnerabilidade que eu raramente via nele.
— Claro que não, Hermanito. — Ele falou, a voz mais baixa, esticando o braço e colocando a mão firme no meu ombro. — Somos irmãos. Daqui até a eternidade. Me desculpa se pareceu que eu não queria por não te aceitar. Eu sei que você ama a minha irmã pra caralho e já provou isso mil vezes.
Sustentei o olhar dele, a confusão ainda martelando na minha cabeça.
— Então por que não quer?
Atlas passou a mão no cabelo perfeitamente amarrado, soltando alguns fios num gesto de pura frustração.
— Não é que eu não queira, José. É só... — Ele fez uma pausa, os olhos brilhando de um jeito diferente, carregados de memórias dolorosas. — É que eu ainda vejo a Athena como a minha garotinha. Ela era uma criança quando a nossa mãe ficou doente, e eu assumi um papel ainda maior do que o do meu pai na vida dela na época. Eu fui a âncora dela. E depois do que passamos, depois de tudo... acho que imaginar ela casando me dá a sensação de que irei perder isso. Esse espaço na vida dela.
Senti um nó se formar na minha garganta. O Atlas que estava ali não era um ricaço arrogante que me achava inferior, era um irmão mais velho apavorado. Ele engoliu em seco, claramente emocionado, mas continuou falando.

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