Capítulo 321 — O Homem dos Olhos Raros
Juliet Pierce
O quarto estava mergulhado em um silêncio quase sagrado, cortado apenas pelo bipe rítmico do monitor cardíaco e pelo som suave da respiração do Noah. Sentada na cadeira ao lado da cama, eu não conseguia desviar os olhos do rosto dele. A palidez contrastava com os hematomas e os pequenos cortes, mas, para mim, ele continuava sendo o homem mais lindo do mundo.
Deslizei meus dedos trêmulos sobre a mão grande dele, que repousava sobre o lençol branco, tomando cuidado com o acesso venoso.
— O dia em que nos conhecemos ainda é tão vivo na minha mente, Noah... como se tivesse sido ontem. — Minha voz saiu num sussurro embargado, quebrando o silêncio do quarto.
As lembranças invadiram minha mente com uma clareza absurda.
— Eu estava apavorada naquele dia. Com tanto medo daquele lugar, de ser reconhecida. Não que eu pensasse que era errado o que vocês faziam lá. — Brinquei com os dedos dele — Mas porque era diferente de tudo que já tinha visto e então… eu trombei logo com você. — Um sorriso fraco, banhado em lágrimas, curvou meus lábios. — O seu olhar... ele mexeu comigo no exato segundo em que cruzou o meu. Foi como um choque.
Aproximei meu rosto da mão dele, sentindo o calor da sua pele, e sussurrei a mesma frase que guardei para mim naquela época:
— Meu homem dos olhos raros...
Suspirei, a saudade apertando meu peito mesmo com ele ali na minha frente.
— Você foi o meu herói antes mesmo de saber que me amava. Eu nunca vou esquecer de você colocando aquela porta abaixo para me defender daquele cretino. — As lágrimas começaram a escorrer livremente, quentes e silenciosas, molhando meu rosto. — Mas você também me fez sofrer, sabia? Aquele nosso joguinho de gato e rato... O ódio que eu senti quando te vi com aquela submissa.
Puxei o ar com dificuldade, rindo em meio ao choro enquanto as memórias da nossa trajetória turbulenta passavam como um filme.
— Você já me deu muito trabalho, Noah Blake. Muito mesmo. O ciúme que eu senti da Marcela quando vi ela com a mão em você... e daquela francesa abusada que nós conhecemos em Paris. Deus, eu queria matar vocês dois.
Acariciei a pele áspera do dorso da mão dele.
— E pensar que você era um homem tão frio, tão distante. Você nem mesmo sabia o que era ficar de chamego. Era só controle e regras. E hoje... — Dei uma risada anasalada, secando uma lágrima com as costas da mão livre. — Hoje você não aceita que eu durma antes de dar um belo chamego em você. Meu Dom mimado.
Levei a mão livre até o rosto dele, contornando a linha forte da mandíbula com a ponta dos dedos, sentindo a barba por fazer roçar na minha pele.
— Para o homem que dizia não saber amar, você amou demais, Noah. Você amou tanto... que estendeu esse amor aos meus filhos. Você os acolheu, os protegeu, e agora eles são nossos. Completamente nossos.

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