Capítulo 240 — O Refúgio do Guerreiro
Noah Blake
O contraste entre o cheiro de mofo da sala de interrogatório e o aroma de lavanda e limpeza da minha cobertura era gritante. Assim que o elevador privativo se abriu, o silêncio pesado que eu carregava nos ombros foi quebrado pelo som mais bonito do mundo: risadas de criança.
Deixei as chaves no aparador e, antes que eu pudesse tirar o sobretudo, um furacão loiro atravessou a sala.
— PAPAI! — Laurinha gritou, largando as bonecas no tapete e correndo na minha direção com os bracinhos esticados.
Ajoelhei-me a tempo de aparar o impacto. Ela se jogou contra o meu peito, e eu a apertei com força, inspirando o cheiro de xampu de bebê e inocência. Ali, com ela nos braços, o presídio para onde meu irmão havia sido levado parecia um pesadelo distante.
— Oi, minha princesa. — Beijei a bochecha gordinha dela, fazendo-a rir. — Você cuidou bem do castelo enquanto o papai estava fora?
— Cuidei! — Ela assentiu vigorosamente, com aquela seriedade cômica de quem tem cinco anos. — E o Heitor também ajudou. Ele comeu toda a gelatina!
Levantei os olhos e vi Heitor no sofá, ainda meio pálido, mas sorrindo. Ele estava com o tablet, mas o largou assim que me viu.
— Oi, campeão. — Caminhei até ele com a Laurinha no colo e baguncei o cabelo dele. — Como você está se sentindo?
— Tô bem, papai. — Ele respondeu, e meu coração aqueceu com aquela palavra. — A mamãe disse que eu sou forte igual a você.
Sorri, sentindo um orgulho imenso daquele garoto que já tinha enfrentado tanta coisa.
— Sua mãe tem razão. Mas acho que você é mais forte que eu. — Olhei em volta, notando a ausência dela. — E cadê a mamãe?
— Ela foi na tia Sammy. — Heitor respondeu, voltando a atenção para o jogo. — Disse que a tia Sammy tava dodói do coração e precisava de abraço.
Assenti. Ju, sempre cuidando de todos.
— Tudo bem. Fiquem com a Cece, o papai vai tomar um banho rápido, tá bom?
— Tá bom! — Laurinha gritou, já descendo do meu colo para voltar às bonecas.
Caminhei para o quarto, sentindo o peso do mundo voltar a cair sobre mim assim que fechei a porta. O silêncio do quarto não era paz; era espaço para pensar.
Tirei a roupa mecanicamente, jogando a camisa cara num canto qualquer, e entrei no chuveiro. Liguei a água quente no máximo. Deixei o jato bater nas minhas costas, na minha nuca, tentando lavar a sensação de impotência.
Mas a água não lavava a memória. A imagem do Atlas algemado, com aquele olhar de quem estava indo para o abate, invadiu minha mente. O choro do meu irmão... aquilo me assombrava. E, logo atrás dessa imagem, vinha a do meu tio.
Fechei os olhos e encostei a testa no azulejo frio, a água escorrendo pelo meu rosto como as lágrimas que eu me recusava a derramar.
Natanael. Por quê? A pergunta ecoava na minha cabeça. Por que ele pagou para antecipar o processo? Por que ele queria destruir o Atlas? Eu sabia que o alvo final era eu. Sempre fui eu. Mas usar a minha família, usar o homem que é meu irmão de alma... isso era baixo demais até para ele.
— O que eu fiz pra você me odiar tanto, tio? — murmurei para o vapor, sentindo a culpa corroer meu estômago. — Por que destruir o menino que você jurou proteger?
O som da porta do box se abrindo me fez virar rápido, tenso.

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