O riacho corria como uma fita líquida entre as pedras, espalhando reflexos prateados pela manhã. O cheiro de capim molhado e eucalipto vinha das margens, e as libélulas faziam pequenos zigue-zagues sobre a água.
Lila, agora já estava de shorts jeans e camisa amarrada na cintura, ainda tentava se recompor do ataque de riso que teve quando o peão quase desmontou do cavalo ao sair do riacho, com os olhos grudados em Suze como se ela fosse uma miragem do deserto. Catarina, ainda estava de biquini e estava deitada na borda do riacho tomando um sol. E Suze, estava sentada na pedra ainda de biquíni. A morena cruzou as pernas com arte, levantou o queixo e deixou a luz do sol acariciar o seu rosto.
— Eu avisei que o campo tem suas vantagens — disse Catarina, mordendo o canto do lábio, cúmplice. — Aqui o povo é direto. Viu, gostou, caiu do cavalo.
— Coitado — Lila tentou aparentar compaixão, mas suas bochechas ainda estavam coradas. — Ele vai jurar que a sela estava com defeito.
— Querida — Suze ajeitou a alça do biquíni, com o mesmo zelo de quem afina um violino — A sela estava perfeitamente firme, o que desestabilizou foi ele, não o cavalo.
Catarina sentou-se numa pedra lisa, deixando os pés dentro do riacho, e suspirou feliz, como quem abre uma página de revista. Lila acompanhou, puxando mechas de cabelo para trás da orelha, tentando fingir normalidade enquanto o coração descansava do susto e da vergonha.
Suze espreguiçou-se com teatralidade, molhando as mãos e tocando a água no colo, só para sentir o frescor. O lenço floral agora pendia displicente do punho, e ela parecia um cartaz de cinema colorido demais para caber naquele cenário, justamente por isso perfeitamente no tom.
— Bom, meninas, já que estamos em modo “clube da luluzinha com cenário de comercial de shampoo”, vamos ao que interessa — disse Suze, inclinando-se para a frente. — Cat, meu amor, me conta como é a minha amiga com o seu irmão.
Catarina arqueou uma sobrancelha maliciosa e olhou para Lila com a satisfação de quem segura uma bomba de glitter prestes a estourar.
— Você quer saber sobre o fogo dela com o meu irmão?
— Sobre o fogo dela com o seu irmão — confirmou Suze, batendo palminhas sem som.
Lila cobriu os olhos com a mão, derrotada e rindo.
— Pelo amor de Deus, vocês duas!
— Ah Lila, sou sua melhor amiga, estou ansiosa para saber se você se tornou uma maníaca sexual, porque menina, fogo você sempre teve. — Lila arregalou os olhos. — Vamos, Cat… a plateia exige verdade.
Catarina demorou um segundo a mais do que precisava, apenas para manter a expectativa no ponto de fervura, e então sorriu de canto.
— O Taylor… — começou, como se escolhendo o adjetivo perfeito numa prateleira — meu irmão nunca foi quieto, sempre tive que lidar com mulheres desesperadas atrás dele querendo “repetir a noite ardente” — Lila fez um bico. — E a Lila — ela virou-se, apontando o queixo para a cunhada — minha amiga ela conseguiu me superar e olha que eu e o Maurício já transamos por quase todos os cantos dessa fazenda.
Lila abriu a boca para protestar, mas nada saiu. Suze bateu as mãos na água, tri-um-fan-te.
— Eu sabia! — cantou, quase desafinando de propósito de tanta empolgação. — Sabia que o Taylor tinha pegada. Ele tem a cara daqueles homens que te jogam na parede e fazem você esquecer o próprio sobrenome. E, com o perdão da poesia regional, faz a terra tremer.
— Suze! — Lila sussurrou, chocada e divertida. —Meu Deus é do meu noivo que você está falando.
Catarina gargalhou tão alto que um bando de pássaros se ergueu do galho próximo.
— E tem outra — continuou, mordendo a risada. — Minha amiga Lila e meu irmão sempre foram fogosos. Sempre! Agora, com a gravidez, a verdade é que… basta o Taylor aparecer sem camisa que a Lila já se j**a.
— Não é verdade! — Lila rebateu, meio indignada, meio derrotada. — Eu não “me jogo”.
— Não se j**a, não — Catarina concordou, séria por três segundos. — Você voa.
Suze caiu de costas no gramado, rindo em silêncio, e por um instante só se ouviu a água. Quando ela se recompôs, apoiou o queixo nas mãos e examinou Lila com afeto.
— Falando em ciência de campo — disse, num tom de entrevistadora do Discovery —, é verdade aquela história de que, na gravidez, o fogo aumenta? Pesquisa empírica, querida. Não vale “depende”, não vale “talvez”.
Lila inspirou, procurando diplomacia no bolso inexistente.
— Eu diria que… o coração fica mais bobo e o corpo fica mais sincero.
— Tradução? — Suze pediu, inclinando-se.
— Tradução: sim — Catarina respondeu por ela, piscando. — Sim com letras garrafais, fonte negrito, fundo neon. E, honestamente, o Taylor gosta de provocar. Teve um dia que a Lila ficou secando o meu irmão e eles saíram para cavalgar e voltaram só de madrugada.
— Catarina!
— Amiga, eu preciso urgentemente de um cowboy! Será que o Taylor não tem um primo, um amigo…
— Não existe ninguém como o meu cowboy!
Suze desviou o olhar para Catarina e disse:
— Possessiva, adoroooo!
As três riram, e o riso parecia lavar qualquer tensão do dia. A água batia nas canelas, levando embora as pequenas folhas que escorregavam das árvores.
— Peraí, mas o que eu estou dizendo, tem o Raul…. — Suze virou-se e mexeu nos cabelos curtinhos, espelhando o sol na franja.
— Pois é amiga. E ele com toda certeza gostou de voce. — completou Catarina divertida.
— Estou sinceramente cogitando a possibilidade de me mudar para cá. Uma vida saudável, o ar puro, um homem sarado e suado em cima de mim…
— Suze, e o seu “rolinho”? — Lila perguntou.

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