A frase atravessou a varanda como um trovão.
Maurício engasgou com a cerveja.
Taylor parou no meio da nota, sentindo o copo congelar. Os dois viraram ao mesmo tempo.
Viram Lila sentada, com uma mão na barriga, a outra agarrando o braço da cadeira, o vestido escuro começando a colar nas pernas.
O mundo girou. O rosto de Taylor perdeu a cor em tempo recorde.
— O quê? — ele murmurou, com a voz saindo num tom ridiculamente fino para um homem daquele tamanho.
Catarina correu até a cunhada, se ajoelhando ao lado dela.
— Respira, respira… tá tudo bem, tá tudo bem.
Não estava tudo bem.
Mas alguém tinha que mentir com convicção.
Lila sentia as contrações começando a ensaiar, um desconforto profundo, estranho. Não era aquela dor apocalíptica ainda, mas era o suficiente para acender um pânico antigo em alguma parte do cérebro.
Taylor finalmente se mexeu.
Andou até elas, primeiro rápido demais, depois tropeçando no próprio pé. Ajoelhou-se na frente de Lila, com as mãos no ar, sem saber onde encostar.
— Tá… tá tudo bem, amor… — começou, a voz tremendo. — É… é só… é… natural! É lindo! É maravilhoso!
Ela arregalou mais ainda os olhos.
— Natural? — repetiu, indignada. — NATURAL É CAVALO PARINDO NO PASTO, TAYLOR!
— Tá, não, péssimo exemplo — ele corrigiu na hora, desesperado. — Mas calma! Olha pra mim, respira comigo. Inspira… expira…
Ele começou a puxar o ar alto demais, ofegante, quase hiperventilando.
Lila o encarou.
— Quem tá entrando em trabalho de parto é você ou sou eu?!
— Você — respondeu Catarina, séria, segurando a mão dela. — Mas ele é dramático profissional, então parece que são vocês dois.
Maria já tinha sumido para dentro de casa, explodindo ordens pela cozinha.
— Toalha! Água! Cadê meu pano branco? Quem deixou essa panela aqui, meu Deus do céu? — as vozes vinham e iam, como uma orquestra caótica.
Maurício finalmente PROCESSOU a informação.
— OS GÊMEOS. — repetiu, petrificado. — OS GÊMEOS ESTÃO NASCENDO.
Ele colocou a garrafa em cima da mesa.
Errou e derrubou fazendo a cerveja espalhar.
— A parteira. — murmurou. — Eu vou buscar a parteira. Eu… EU VOU BUSCAR A PARTEIRA!
E saiu correndo desengonçado, tropeçando no degrau da varanda, quase indo de cara no chão, mas seguiu mesmo assim, como um foguete sem direção.
— MAURÍCIO, PEGA O CARRO, NÃO VAI TRAZER A PARTEIRA NO COLO! — gritou Catarina, mas já era tarde.
Taylor ainda estava ajoelhado na frente de Lila, parecendo um misto de cowboy e estátua.
Ela sentiu outra contração, mais forte.
Fechou os olhos, apertando a mão de Catarina com tanta força que a cunhada fez uma careta.
— Ai, meu Deus… — murmurou. — Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus…
Taylor entrou em modo pânico completo.
— Tá tudo bem, amor, tá tudo bem, tá tudo perfeito, tá tudo lindo, olha só, respira, pensa em… pensa em coisa boa, pensa em... gatinhos! Pensa em…
— EU NÃO QUERO GATINHOS, EU QUERO UMA EPIDURAL! — ela berrou.
Ele piscou.
— Eu não sei o que é isso, mas eu dou um jeito. — começou a olhar ao redor como se fosse encontrar uma anestesista atrás de uma pilha de feno. — Maria! A gente tem epidural na dispensa?!
— A gente tem é juízo limitado! — veio a resposta de longe.
Catarina respirava junto da cunhada, tentando manter a calma. Estava tremendo também, mas sua prioridade era Lila.

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