O céu estava de um azul insolente, sem uma nuvem para negociar sombra, e o cheiro doce da grama recém-cortada subia do campo como um convite descarado. Lila ajeitou o chapéu, montou com cuidado e lançou um olhar de quem estava pronta para aprontar sem admitir. Catarina já vinha logo atrás, levando o cavalo numa leveza de quem nasceu com rédeas nas mãos. E, por fim, o furacão cosmopolita de óculos escuros: Suze Sinclair, num look “cowgirl editorial” que ninguém na fazenda tinha pedido, mas todo mundo secretamente amava.
— Você tem certeza de que esses saltinhos combinam com estribo? — Lila perguntou, engolindo uma risadinha.
— Querida, tudo combina com estribo quando você tem confiança e gloss labial — declarou Suze, estalando a língua e dando dois toques no flanco da égua. — Além do mais, eu trouxe biquíni de reserva. Em três tons. Caso a luz mude.
— Três tons? — Catarina riu. — O riacho não tem filtro do I*******m, viu?
— Ainda, meu amor. Ainda. — Suze piscou.
Partiram num trote gostoso. Os pássaros faziam coro, o vento enroscava nos cabelos, e a trilha se abria entre cercas brancas e filas de eucalipto. Lila respirou fundo. Tinha no peito uma calma luminosa, dessas que aparecem depois de um susto bom: o casamento chegando, o bebê a caminho, Taylor mais doce e mais cowboy do que nunca. Tudo parecia finalmente alinhado, e isso a deixava corar de dentro pra fora sempre que lembrava do jeito como ele a olhava pela manhã, sem camisa, claro, deus do céu.
— Pensando no meu irmão sem camisa — cantarolou Catarina, maliciosa.
— Eu não! — Lila tentou, ridiculamente convincente.
— Aham — Suze respondeu, inclinando os óculos. — Quer que eu descreva a dilatação da sua pupila quando a palavra “sem camisa” entra na conversa?
— Vocês duas… — Lila mordeu o sorriso, vencida.
A trilha se afunilou, e de repente desceu em curva para o som que elas procuravam o riacho. Suze arregalou os olhos.
— Isso aqui é um set de filmagem. Falta só um diretor gritar “Ação!”
— O diretor aqui chama “natureza” — disse Catarina, já desmontando com agilidade. — Lila, desce com calma. Eu seguro.
— Eu sei descer, tá? — Lila respondeu, mas aceitou o braço da cunhada, porque orgulho é ótimo, porém a gravidade existe.
Em dois minutos, as três estavam com os cavalos amarrados sob a sombra e os chapéus pendurados nos galhos. Suze abriu a bolsa como quem desarma uma bomba e tirou um lenço, um protetor labial, um biquíni que parecia ter sido desenhado por um arquiteto minimalista, uma canga e uma pequena caixa de som.
— Você trouxe música? — Lila gargalhou.
— Claro. O silêncio é lindo, mas um refrão cura qualquer pessimismo — Suze decretou, emparelhando o aparelho.
Tiraram as botas, riram do barulho oco que elas fizeram ao cair na grama e, num acordo silencioso de “vamos aproveitar antes que o bom senso volte”, começaram a tirar o resto da roupa. Suze foi a primeira, claro, deslizando o short de alfaiataria com a graça de quem faz isso em camarim iluminado. O biquíni dela era um azul vibrante, tão minúsculo quanto chic, e parecia ter sido desenhado especificamente para provocar tropeços masculinos.
Catarina tirou o vestido florido com naturalidade de quem nadava naquele riacho há tempo demais. O biquíni dela era preto, firme, lindo e ousado, como ela. Lila hesitou por meio segundo, temendo que algum peão pudesse aparecer, culpa da timidez mas respirou fundo e também tirou a camisa e o short. Seu biquíni era um verde suave que abraçava suas curvas, e por um instante, enquanto a luz do sol batia na água atrás dela, as outras duas ficaram em silêncio, admirando.
— Amiga… você tá radiante — disse Catarina, num sorriso que era carinho puro.
— Gostosa pra caralho, se eu gostasse de mulher eu te pegava. — completou Suze.
— Suze! — Lila retrucou corando e Catarina corou.
— Agora vamos, garotas. Preciso provar essa água.
E então se renderam e entraram no riacho.
A água veio como um choque primeiro… e depois como um abraço quente, mesmo sendo fria. Um contraste delicioso que fez Lila suspirar alto, fechando os olhos enquanto a correnteza molhava seu corpo.
— Meu Deus, isso tá gostoso demais. — suspirou Suze mergulhando no riacho.
Catarina também já tinha mergulhado e foi aí que o destino, fanfarrão profissional, resolveu colaborar com o roteiro: do outro lado do riacho, surgiram dois peões conduzindo um par de cavalos pelo raso. Um deles ergueu os olhos, viu a cena, três mulheres lindas, rindo, respingando água ao sol e desacelerou. O chapéu abaixado não disfarçou a cara de “uau”.

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