O sol começava a cair sobre a fazenda Sun Valley, espalhando um dourado preguiçoso sobre tudo. O cheiro de capim cortado e terra quente ainda pairava no ar, e o vento soprava leve, trazendo o som distante do riacho e o murmúrio de peões terminando o dia.
Tomás saiu do galinheiro com um meio sorriso no rosto, daqueles que a gente tenta esconder, mas que se recusam a ir embora. Ainda sentia na pele o eco da conversa com Clara, a voz doce e calma dela misturada ao barulho das asas das galinhas.
“Elas não me atacam se eu não mexer com elas”, ela disse, e ele, bobo, ficou ali parado mais tempo do que devia, só olhando. Agora, enquanto caminhava pelo pátio, parecia ainda ouvir o riso contido dela.
À frente, perto do curral, Taylor conversava com três peões, com o chapéu levemente inclinado e os braços cruzados, postura de quem nasceu e mandava bem naquele pedaço de terra. O sol dourava o cabelo loiro e deixava a sombra do chapéu cortar o rosto, o que só dava mais autoridade ao noivo de Lila, o cowboy que transformava a rotina em respeito.
— E vê se revisa o bebedouro antes de anoitecer, Jorge — dizia ele, apontando para o pasto. — O gado anda bebendo menos, pode ter entupido de novo. E o portão do curral grande precisa de trava nova. Usa a que tá no depósito, não improvisa.
Os homens assentiram e se dispersaram. Taylor suspirou, tirou o chapéu para coçar a nuca e, quando ergueu o olhar, viu Tomás vindo pelo caminho. O sorriso apareceu antes mesmo da fala.
— Ora, ora… — disse, ajeitando o chapéu de novo, com aquele ar de quem já adivinhava. — Conheço esse sorriso. Conheço sim. É sorriso de quem tem mulher no meio, não é?
Tomás riu, passando a mão pelos cabelos.
— Mulher no meio? Você é rápido, hein, cowboy.
— Rápido, não. Experiente. — Taylor inclinou o corpo, apoiando um cotovelo na cerca. — Desde que pedi sua irmã em casamento, aprendi a decifrar esse tipo de cara.
— Ah, Lila deve ter te dado trabalho… — provocou Tomás, cruzando os braços. — Não é fácil lidar com minha irmã.
— E mesmo assim tô aqui, firme e apaixonado. — Taylor sorriu de lado. — Agora, fala logo: quem é ela?
Tomás soltou um riso meio sem graça, chutou um pedacinho de terra com a bota e acabou confessando:
— Conheci a Clara.
— A Clara? — Taylor arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Essa mesma.
O sorriso de Taylor cresceu, misto de surpresa e aprovação. Ele deu um assobio baixo, divertido.
— Hm… Clara é uma boa moça, Tomás. Trabalhadeira, quieta, mas tem um coração enorme. — A voz dele baixou, com um toque sério. — Só não vá brincar com os sentimentos dela, ouviu?
— Não é brincadeira, cunhado. — Tomás respondeu depressa, sincero. — Eu… não sei. É diferente. Ela fala e parece que tudo desacelera, entende? É como se o mundo parasse pra ouvir.
Taylor o encarou de novo, com aquele olhar avaliador típico de quem mede o caráter do outro, mas também de quem gostava do que estava ouvindo.
— Entendo, sim. — respondeu por fim, sorrindo. — Pelo visto vai se mudar para cá em breve.
Tomás riu.
— Pois então cunhado se prepare, para me ensinar a comandar uma fazenda.
— Esta disposto a deixar a vida de luxo para trás?
Tomás assentiu, pensativo.
— Se for para viver um grande amor, sim.
— Então pode contar comigo!
Taylor se aproximou de Tomas e deu um abraço apertado no cunhado e quando ia continuar a conversa, um ronco de motor se aproximou.
— Ah, lá vem o reforço.
Uma caminhonete velha azul entrou levantando poeira e estacionou com estardalhaço. Da cabine saltou Maurício, de camisa xadrez, botas gastas e aquele jeito de quem chega e muda o clima da conversa.
— Boa tarde, senhores! — anunciou, animado. — E aí, o que perdi? Tô sentindo cheiro de fofoca no ar.
Taylor deu uma risada curta.
— Tá sentindo certo. O cunhado aqui conheceu a Clara.
— A Clara? — repetiu Maurício, arregalando os olhos de modo teatral. — Ah, então é por isso que ele tá com esse ar de quem viu um anjo descendo no galinheiro.
— Ei! — Tomás protestou, rindo. — Também não é assim…
— É sim — rebateu Taylor, divertido. — Eu vi esse olhar no espelho quando comecei a olhar pra sua irmã.
Maurício apoiou as mãos na cintura.

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