O fim da tarde caía manso sobre a fazenda, tingindo o mundo de tons quentes: dourado, cobre e laranja se misturavam no horizonte, como se o céu tivesse decidido repousar sobre a terra. O ar tinha o perfume doce do feno e o som constante das galinhas ciscando fazia fundo a uma paz que raramente existia dentro de Clara.
Ela estava ajoelhada no chão batido, o avental amassado e o cabelo escapando rebelde do lenço amarrado às pressas. Colhia os ovos com um cuidado quase maternal, ajeitando cada um no cesto de palha como se fossem joias frágeis.
— Você leva jeito com elas. — disse uma voz masculina atrás dela, grave e rouca, com aquele tipo de doçura que fazia o coração tropeçar.
Clara virou-se devagar. O sol, baixo no céu, formava um halo em torno da figura dele. Tomás, o irmão mais velho de Lila estava encostado no batente do galinheiro, com as botas cobertas de poeira, a camisa aberta no colarinho e o chapéu jogado sobre os cabelos castanhos claros que brilhavam sob a luz. O sorriso fácil no rosto dele tinha algo de perigoso, aquela mistura de encanto e travessura que só homens muito certos de si conseguiam sustentar.
— Ah… eu? — murmurou Clara, piscando devagar, tentando parecer mais calma do que se sentia. — Elas não me atacam se eu não mexer com elas. Acho que é um acordo justo.
Tomás riu, um som quente que fez as galinhas se agitarem e o coração dela também.
— Acordo justo mesmo. — respondeu, cruzando os braços e inclinando o ombro contra a madeira. — Mas não parece só acordo não. Elas te seguem com os olhos. Devem saber que você tem um jeito bom.
Clara abaixou o olhar, fingindo se ocupar com o cesto.
— É só costume, eu acho. A gente se entende. — Pausou, sorrindo de leve. — Eles não cobram nada, só atenção.
Tomás arqueou uma sobrancelha.
— Então a gente já tem algo em comum.
Ela levantou o rosto, surpresa.
— Como assim?
— Eu também gosto de quem não cobra nada. — Ele sorriu, um sorriso de canto, meio maroto. — Só companhia.
Clara riu, balançando a cabeça.
— Você fala como se fosse simples assim.
— E não é? — Ele se aproximou um passo, tirando o chapéu e segurando-o entre as mãos. — Às vezes as pessoas complicam demais o que podia ser leve. Tipo conversar no galinheiro no fim da tarde.
Clara ergueu os olhos para ele.
— Conversar no galinheiro? Essa é nova.
— Pode virar tradição. — Tomás piscou. — Mas só se você prometer não fugir da próxima vez.
Ela mordeu o lábio, rindo.
— Eu não fugi.
— Ah, não? — Ele se aproximou mais um passo. — Então foi o quê?
— Estratégia de sobrevivência. — respondeu, tentando parecer séria. — Homens sorridentes são perigosos. E você é o irmão de minha futura patroa.
Ele deu uma gargalhada leve, passando a mão pelos cabelos.
— E mulheres com olhos curiosos também. E outra coisa, minha irmã parece ser uma pessoa dificil, mas vai gostar dela, prometo.
Os dois riram juntos.
O som ecoou entre o galinheiro e o campo, misturando-se ao farfalhar do vento e ao crepitar distante do fogo na cozinha da fazenda.
Mariana, que estava num canto recolhendo cascas de milho, levantou o olhar e observou os dois, divertindo-se em silêncio. Conhecia aquele tom na voz de Clara, o tom de quem queria parecer indiferente, mas já estava perdida no encanto.
— E você, Mariana? — perguntou Tomás, mudando de alvo com naturalidade, embora o olhar ainda voltasse a Clara de tempos em tempos. — Maria disse que você conhece uma trilha mais rápida para cavalgar até o riacho, é verdade?
Mariana piscou, surpresa.
— Eu? Ah, sim… é verdade.
— Pois depois quero saber. Nadar lá deve ser fantástico, principalmente quando estamos acompanhados. — Ele ajeitou o chapéu na cabeça, o sol dourando a linha do maxilar. — O pôr do sol tá bonito hoje. O que acha de cavalgarmos, Clara?
Mariana ficou corada de imediato.
— E-eu… bem… — gaguejou, olhando de relance para Mariana, que tentava esconder o riso atrás do cesto. — Acho que posso ir, sim.
— Então é um encontro. — Tomás sorriu. — Nos vemos no estábulo, perto do entardecer.
Mariana ergueu uma sobrancelha divertida.
— Você é bom nisso, hein?
— Nisso o quê? — perguntou ele, fingindo inocência.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento Forçado: O Cowboy com quem me casei era Bilionário